Aurora

https://open.spotify.com/playlist/3wgorGZOPR0diOBUlPacQd?si=SzojvuP9SaW4dN6Pn_J39A

E de repente um novo dia nasce. É a chance de tudo mudar e surgir de um modo diferente. Mais justo, mais amigável, mais honesto e equilibrado. Um mundo onde viver a própria vida é o que todos buscam, sem se importar com as escolhas dos outros, principalmente aquelas que não afetam a sua vida.

É dessa forma que as músicas da playlist Aurora vão surgindo, faixa a faixa partindo de um clima festivo para canções mais calmas em momentos voz e violão. Tem espaço para todos os gostos, da balada anos 80 e 90 até o que nos acostumamos a chamar de MPB. E no fundo a vida é isso. Um lugar onde existe espaço para todos serem como realmente são, sem medo de perseguições que se não faziam sentido anos atrás, mas eram comuns, hoje fazem menos sentido ainda e seu questionamento social causa ira aos perseguidores.

Não consigo fugir da ideia de preconceito ao ouvir essa playlist. Lembro dos meus tempos de adolescente e jovem adulto. Era comum a ofensa maior ser relacionada a sexualidade. E hoje, pensando com mais idade, maturidade e principalmente com um novo olhar comum a este mundo moderno, fica difícil entender isso. Afinal, a sexualidade nunca deveria ser mais importante que o caráter de uma pessoa.

Enquanto eu crescia, começavam-se a se formar guetos, tinham bares onde só iam homossexuais e se nós héteros éramos vistos neles, já se criava uma fama ruim. Baladas praticamente o mesmo. E se dizia que as baladas gays eram até mais animadas. O som produzido nesse tempo de certa forma também recebia alguma classificação pejorativa. E em todos os graus ninguém se preocupava que ali tinha uma pessoa que sofria. Que situações sobre as quais ela não tinha escolha nenhuma faziam com que o mundo fizesse leituras a seu respeito e oportunidades poderiam surgir ou sumir  sem qualquer lógica.

As pessoas queriam saber onde você morava, a cor da sua pele, com quem você se relacionava, quanto de poder financeiro você tinha. Eram esses valores fugazes que definiam o mundo. Piadas comuns e fáceis de se ver envolviam também estes temas e se você estava em uma das minorias, tinha que ter força para aguentar e tocar a sua vida sem atrapalhar o bom andamento social, afinal você era o errado. Quem mandou não nascer homem, branco, hétero, rico e sem qualquer problema físico? Se nasceu com certeza a culpa era sua e por ser inferior com certeza sofreria.

Sua única esperança era ter em seu círculo gente que entendesse e não ligasse para isso. Coisa rara lá pelos anos 80 e 90 e ainda bem, mais comum nos dias atuais. Engraçado que pessoas ouviam canções feitas por Elton John e pelo Queen (que está na playlist), só pra ficar em dois exemplos. Como os negros nos times de futebol, serviam para entreter, mas nunca para conviver. 

Talvez por isso eu tenha gostado tanto do título dessa playlist e da forma como ela foi montada por quem me mandou. Quantas vezes o Sol precisou nascer como esperança para que hoje a gente consiga viver num momento em que minorias sofram um pouco menos?

Quanto a gente não teve que levantar torcendo para realmente estarmos num mundo de festa e justiça? Quanto tempo vamos ter que esperar para realmente vivermos num novo tempo? Onde todo o preconceito será jogado no lixo e as pessoas deixarão de ser julgadas pelo que parecem e passem a ser vistas pelo que são?

Confesso que a partir de hoje, cada vez que ouvir essa playlist, fatos como a origem do dia das Mulheres, o que se quer do dia da Consciência Negra, a luta pela liberação dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo e a força que emana de eventos como os Jogos Paralímpicos serão lembrados por mim. E eu que sou negro e deficiente me vejo obrigado a perguntar, o que estou fazendo para que a festa desejada na playlist possa realmente ocorrer? Já pensou no tema? Você faz algo para um mundo melhor? Comente aqui o que pensa sobre o assunto e ouça a playlist e siga o Instagram do livro. Por acaso o tema vai aparecer lá também!

Ouça O Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém – Engenheiros do Hawaii

 

Muita gente que visita o blog sabe que eu sou professor. Alguns amigos mais próximos sabem que eu sempre me questiono sobre o que deve ser ensinado para cada pessoa. Sempre me questiono sobre a importância real daquilo que ensino. Penso que tenho que formar seres pensantes e principalmente inseridos na sociedade. Penso também que infelizmente não posso sofrer pelo outro, por mais que goste dos meus alunos, sei que só estarei sendo realmente justo com eles se deixar que sofram, como vão sofrer no futuro. O período escolar acaba funcionando como preparação para a vida dura que cada um deles terá pela frente num futuro mais ou menos distante.

Hoje falo sobre isso devido a conversa sobre acessabilidade e coitadismo. Não acho que precise citar nomes, não vale a pena. A questão entretanto é profunda e merece discussão. Aos que já me viram pessoalmente, sabem que sou negro e contrário ao sistema de cotas raciais. Veja eu acho que vale a pena ressaltar o raciais. Se for pra ter cota que ela seja definida pela renda, não pela cor da pele. Não vejo nos dias de hoje um racismo tão forte a ponto de uma raça precisar de medidas afirmaticas, até já falei aqui antes disso, o preconceito aqui é maior contra o pobre do que contra o negro.

Acho que devemos sim oferecer chances iguais a todos, mas as chances não são a de chegar ao pote de ouro no final do arco-íris sem perceber o que faz cada um chegar lá. As chances devem ser as de fornecer as mesmas ferramentas para que cada um construa o seu caminho e possa mostrar que realmente é bom, tendo condições iguais de preparação. Colocar em disputa uma pessoa com tudo a sua disposição com alguém que mal tem acesso a alimentação é realmente algo complicado. O ideal é dar condições mínimas aos dois. Mas mais importante do que isso, eu não posso pensar por outra pessoa. Não posso decidir o que ela vai fazer nem mesmo o que é melhor para cada um. Só posso é dar condições similares.

O título do post vem de uma reportagem que me deixou estarrecido. O texto publicado pelo Correio do Brasil em 11/08 diz que pode ser obrigatório para os deficientes auditivos aprender LIBRAS nas escolas. Eu acho isso perigoso. Na verdade acho excludente e temerário para os próprios surdos. A meu ver esse tipo de obrigação mais limita do que liberta.

Não vou aqui fazer campanha contrária a LIBRAS, ela é importante e funcional e deve sim ser oferecida a qualquer pessoa que queira aprender, mas também conheço uma parcela grande de surdos que são oralizados, fazem leitura labial e portanto fazem uso do português como forma primordial de comunicação (para quem não sabe LIBRAS é uma língua própria, diferente da língua portuguesa, quem sabe libras não necessariamente sabe português). Para que obrigar alguém a ser alfabetizado numa língua restritiva? Eu falo restritiva pensando no que disse no começo do texto. Educar é preparar para o sofrimento posterior. A maioria dos empregos oferecidos depende da comunicação oral ou escrita em língua portuguesa, se a pessoa não se comunica em português fica alijada dessas vagas e dependente de subempregos conseguidos por cotas que pagam salários extremamente baixo e não exploram a capacidade real das pessoas.

Uma solução seria todo mundo ter que falar LIBRAS, algo impossível, visto que se alguém for investir numa segunda língua, vai fazer isso em algo que aumente sua vida profissional e infelizmente LIBRAS não se enquadra nesse caso. Outra seria uma reforma para que LIBRAS fosse uma forma diferente de se comunicar em português e não uma língua a parte, algo similar ao que ocorre com Braile.

Finalmente a cada vez mais nos aproximamos de um período onde pessoas com deficiência não são mais escondidas da população. Finalmente a cada dia percebemos avanços para que todos possam ter acesso semelhante ao que o mundo oferece. Estamos num período de melhoria do acesso, dando ferramentas para que as pessoas possam lutar de igual para igual. Mas ainda algumas coisas parecem jogar contra. Falo isso porque no caso, obrigar o surdo a ser alfabetizado em LIBRAS mais limita do que liberta. Ao invés de ampliar a capacidade de comunicação com o mundo, limita a um pequeno grupo.

O que pergunto ao final do texto é porque ao invés de se obrigar alguém a aprender LIBRAS não se oferece a todos os deficientes auditivos fonoaudiologia para que ele possa além de LIBRAS também ter acesso ao português e assim ter mais um canal de comunicação com o mundo, seja ele através da leitura, do mercado de trabalho, do convívio com um número maior de pessoas?  De novo ressalto, LIBRAS é importante e deve ser oferecida a quem quiser aprender, só não se pode impor o seu uso  a todos os surdos.

Final Eyes – Yes

Nunca seremos livres porque a liberdade plena nos amedronta

Umas quase férias de fim de ano, pouca gente pela internet, resolve dar um tempo nos textos. Hoje eu retorno falando de mais um personagem de Watchmen. Falo hoje da Silk Spectre, uma personagem a meu ver bastante interessante. Praticamente forçada a se fazer heroína pela mãe, nunca curtiu a ideia de sair por ai com roupas provocantes batendo em bandidos. Acabou se tornando namorada do ser mais poderoso do planeta e relegou-se a esse papel por um longo período de sua vida.

Inicialmente podemos imaginar uma discussão sobre a visão e o papel da mulher. Visto que ela é a única heroína dessa fase da história. Numa fase anterior tinham mais, sua mãe e até uma heroína que foi assassinada por ser lésbica (Silhouette). A primeira Silk Spectre é tão singular quanto a filha. Entrou na vida de heroína pela fama e glamour. Foi uma garçonete que mudou de vida. Apaixonou-se por um homem que tentou estuprá-la (e foi o pai de sua filha). Acabou casando-se com seu agente quando se aposentou da vida heróica.

Quando penso nas duas, a canção Final Eyes do Yes (clique para ouvir) me vem a cabeça. Sempre imagino, principalmente a segunda Silk Spectre cantando essa música. Na sua busca por uma vida simples comum e lógica. Apesar da música falar de um mundo equilibrado, de certa forma pregar troca positiva entre os seres de ambos os sexos, um aprendizado constante (e nessa parte eu acho que tem tudo a ver com a segunda Silk), vejo as duas heroínas como um subproduto submisso de uma visão machista da sociedade.

A primeira viveu sonhando com o sucesso e curtiu ter sido vista como mulher objeto. Seu amor pelo Comediante que tentou violentá-la é algo também marcante. A segunda, filha da primeira e do Comediante, é totalmente levada pela história. Totalmente submissa, virou heroína porque a mão definiu. Abandonou a carreira depois que se casou com o homem mais poderoso do mundo e viveu a sua sombra, sem vontades, sem desejos, sem intencionalidade.

Apenas quando se rebela e acaba tendo um envolvimento com Nite Owl é que aparece algum traço de poder de decisão em suas ações. Somente alguém tão inseguro quanto Dan Dreiberg pra fazer aflorar algum mínimo de esforço em ação dela. Na verdade, raros são os momentos em que ela apresenta algum resquício de vida. Parece sempre morta, um boneco nas mãos dos outros. Alguém que demora para se reencontrar.

Outra coisa que me chamou a atenção é a ausência de personagens femininos fortes, as duas Silk Spectre são bastante interessantes, mas nenhuma das duas tem força. Silhouette que é citada rapidamente aparece apenas pra mostrar a cultura altamente conservadora do povo retratado, sendo morta por sua orientação sexual. Aliás, Ozymandias em vários momentos aparenta uma figura andrógina, em alguns momentos parece homossexual, tudo de forma extremamente velada, como se fosse para levantar mesmo a questão do tabu nessa sociedade.

Penso que muitas vezes o nosso mundo é mais conservador e preconceituoso do que deveria. Os papéis muitas vezes são extremamente bem marcados. De certa forma para sair da fantasia imposta pela sociedade a cada grupo que se faz parte, precisamos de um esforço tremendo, super-humano. Homens fazem A, mulheres fazem B, pessoas que moram no bairro tal fazem C, torcedores do time tal fazem D. Tudo parece um script escrito a tempos e decorado por todos, sendo passado de geração em geração como um ritual mágico.

Dentro desse sistema, infelizmente se torna difícil realmente viver. Agimos como bonecos pré programados. Robôs com uma curta autonomia na programação. Quando alguém foge dos padrões esperados chama a atenção bem mais do que deveria e invariavelmente de forma muito mais depreciativa do que positiva. Temos medo do diferente e por mais que busquemos mudanças em nosso modo de ver e agir, essas mudanças devem estar previstas nesse sistema pré-determinado. Os limites são mais claros e fortes do que imaginamos. Nos iludimos ao dizer que somos livres porque em nossa vida, toda liberdade é relativa.

No fundo, a ideia de uma vida simples, de um jeito simples onde se dá um passo de cada vez é o ideal que todos esperam encontrar. E no fundo, é justamente disso que fugimos, ninguém quer ver-se preso, mas ninguém realmente sabe ser livre. É duro viver assim. Por vezes vejo que não consigo me situar nesse universo dessa forma. E você? Até que ponto é livre? Até que ponto consegue fugir dos estereótipos comuns que a sociedade nos prega? Consegue ser feliz dentro desse sistema?

Alívio Imediato – Engenheiros do Hawaii

Um lugar tranquilo que remeta a paz pode virar palco de uma guerra
Um lugar tranquilo que remeta a paz pode virar palco de uma guerra

As atitudes imbecis que tomamos salvos pela desculpa do preconceito nunca passam impunes. Sempre machucamos alguém ou prejudicamos grupos nessas ações impensadas. Em alguns casos o preconceito é tão forte e tão sem sentido que carregam não apenas uma pessoa, mas diversas pessoas em uma mesma direção sem sentido. Ondas de ódio que crescem e crescem a cada momento, e de repente sem qualquer motivo aparente, pessoas brigam. Surgem guerras e sangue jorra. Seja entre duas nações, seja entre duas cidades, seja entre torcedores de times diferentes, seja de adoradores de deuses diferentes. Infelizmente essas guerras nunca fazem sentido.

É claro que existem motivos políticos, disputas por terras, disputas por dinheiro, muita coisa envolvida em conflitos diversos que observamos por ai. Porém, mesmo estes motivos políticos são sempre questionáveis. É a idéia da dominação plena sempre. Talvez por isso eu tenha escolhido a música que separei. Gosto bastante de Alívio Imediato (clique aqui para ver um clipe da música), uma letra meio nonsense como a grande maioria das canções dos Engenheiros do Hawaii que fala de conflitos diversos e da busca de alívio através da chuva ou da noite. Busca-se a redenção através de algum fenômeno natural, porque provavelmente se dependermos do homem, esse alívio nunca chegará.

Não que eu seja contra a luta pelo que se acredita. Penso que em alguns casos, para defesa, é necessário sim erguer as armas e garantir a própria sobrevivência. Não se pode aceitar tudo o que surge sem se defender, sem tentar garantir a sobrevivência de seu povo e de suas idéias. Porém, sou contra o uso da força para impor algo a outrem, sempre se deve existir negociação, conversa, deve-se evitar a violência.

O que acaba incomodando mais é que quase sempre são utilizados artifícios absurdos para validar o início desses conflitos. Ai preconceitos são inventados, reforçados e ampliados. A população, que se transforma em massa de manobra, é engolida por esses preconceitos. Esse trabalho é feito de tal forma e com tanta eficiência que logo a mídia passa a vender aquilo como correto e todo mundo passa a aceitar o conflito como legítimo, inclusive apoiando as mortes geradas nos combates.

Exemplos para esse tipo de ação existem aos montes. O problema é que o que resta é sempre a versão que o vencedor tem dos fatos. Racionalizar sobre isso torna-se complexo, mas esse exercício de análise é sempre enriquecedor. Será que sempre os vencidos são os vilões? Será que existem vilões? Qual a fonte de tanta ira? Essas são algumas das perguntas que eu pretendo tentar discutir a partir de hoje, provavelmente nessa semana e na próxima. Quer citar algum tipo de conflito para ser comentado? Aguardo seu comentário.

If I were a rich man – Topol (Um Violinista no Telhado)

O que torna uma igreja luxuosa melhor do que essa capela? Nada
O que torna uma igreja luxuosa melhor do que essa capela? Nada

Hoje encerro a semana falando do que enxergo como o maior preconceito brasileiro. Até acho que existem sim ações contra negros, estrangeiros, mulheres, homossexuais, deficientes, etc. Mas dependendo da classe social da pessoa a situação muda. É só ver como se trata o estrangeiro que vem de um país rico e o que vem de um país pobre.

Pensando em exemplos mais próximos, existem até cenas mais fáceis de observar isso. A cor da pele muda de acordo com a alteração financeira da pessoa. O morador da periferia é negro, assume isso, por mais branca que seja sua pele. Já o morador de áreas mais de elite se vende como branco, por mais que brancos sejam apenas os dentes e o fundo dos olhos. Isso é fácil de se perceber, principalmente dentro da imensa população parda que temos no nosso país. O mestiço acaba escolhendo um grupo para se sentir parte.

Para desenvolver esse tema, escolhi uma música que ouvi num filme em uma das aulas de Sociologia do curso de Pedagogia (abandonei o curso). O filme é bem interessante, se chama Um Violinista no Telhado, recomendo pra quem gosta de musicais. A música em questão se chama If I were a rich man (clique aqui para ver o trecho do filme em que a música é cantada). Nela, o personagem principal, em uma conversa franca com seu deus, diz o que faria se fosse um homem rico.

É bem essa a pergunta que sustenta o preconceito. O que cada um de nós faria com dinheiro e por que juntar-me a pessoas que não possuem dinheiro? Parece estranho, mas muitos dos costumes aparentemente surgiram para separar parte do grupo social como os melhores, os escolhidos.

Seja um estilo musical, um tipo de literatura, uma dança ou mesmo a forma de se segurar um talher. As regras sempre parecem segregacionistas. Coisas que só um pequeno grupo de escolhidos podem ter acesso. É a entrada que custa mais caro e seleciona quem vai entrar, é o valor irreal da refeição devido ao nome do restaurante. Coisas assim acontecem a todo momento.

Ao procurar emprego também. Dependendo do bairro onde você mora fica mais difícil, mesmo que você more perto do local onde vai trabalhar. A faculdade que você fez também faz diferença, as vezes esses dois ítens mais do que a prova de admissão. Falo disso tranquilamente por nunca ter passado por esse problema, mas sim ter observado. Vi casos onde isso ficou claro. Tudo bem, isso não tem muito a ver, aparentemente, com o fator financeiro. Porém, o que faz com que se associe o bairro onde a pessoa mora e mesmo o local onde se formou com a capacidade da pessoa é sim um preconceito carregado de elitismo barato.

Como a patroa que não permite que uma empregada doméstica coma a mesma coisa que ela come, ou mesmo que use os mesmos talheres. Como execrar algo só porque não traz uma grande grife como referência. Esse tipo de comportamento social serve apenas para tentar fazer parte de um grupo restrito de escolhidos. Já vi e convivi com pessoas que tinham medo de apresentar os pais a determinado grupo de pessoas com quem convive. Isso porque os pais não comem de determinado modo, não se vestem de determinado jeito, ou, simplesmente, representam um período ou local que se quer apagar.

A questão é que não é vergonhoso ser pobre, nem mesmo é interessante ser (ou parecer) rico. O vergonhoso é não se aceitar, nem aceitar o outro. No fundo preconceito é isso ter tanto medo de se tornar algo que não compreende a ponto de passar a odiar isso no outro.

O mesmo olhar – Suzana Félix

Nesse campo cada uma das flores é de um jeito, mas todas ainda são flores, por que não agirmos assim com os humanos?

Para este post precisei de ajuda, o blog da Lak serviu para que eu encontrasse subsídio técnico e também a música que serve para ilustrar o post. Falar das pessoas com deficiência no Brasil é falar de um grupo que a sociedade tenta esconder e fazer de conta que não existe. É falar de um grupo que raramente é tratado como merece. Afinal são pessoas como qualquer outra, diferindo por ter alguma deficiência facilmente observável. Eu sou daqueles que crê  que todo mundo possui em maior ou menor grau algum tipo de deficiência, visível ou não aos olhos dos outros.

Mas voltando a invisibilidade aparente, é estranho como a nossa sociedade parece ignorar os deficientes. A ausência de programas de acessibilidade se dá pelo fato de que pessoas não acreditam que eles existam, ou pior, acham que eles não deveriam sair de casa. Famílias com PcDs (pessoas com deficiência) sofrem da falta de estrutura e da cegueira social. Quando essa cegueira atinge também os familiares, torna-se quase impossível ao PcD conseguir uma vida minimamente normal.

A meu ver, o que torna as coisas complexas é que muita gente não aceita a possibilidade de (peço desculpas aos PcDs, mas vou usar os termos mais coloquiais para expressar o que penso) que um surdo apenas não ouve (nem vou discutir graus de deficiência), um cego apenas não vê, se alguém não tem uma perna pode muito bem fazer milhares de coisas. Deficientes mentais não são inúteis que devem ficar escondidos, aliás, pior é ver gente que acha que todo deficiente é mental.

A música selecionada foi indicada por uma leitora do blog da Lak. É da cantora portuguesa Susana Félix, para a associação Raríssimas. Se chama O mesmo olhar (clique aqui para ver o clipe). Fala de algo que eu acho ser o mais importante em relação a esse tipo de preconceito. A forma como olhamos os PcDs. É comum vermos essas pessoas tratadas como coitados, super protegidos e mesmo escondidos do convívio social. Quando alguém encontra qualquer PcD, a primeira palavra a ser dita em geral é coitado. Nem se sabe o motivo, mas a pessoa já é vista como alguém numa escala menor de habilidade e por isso coitado. Por mais genial, ativo e sociável que seja essa pessoa.

É difícil aceitar o diferente, e pior, é difícil aceitar que alguém que você acha inferior a você possa fazer coisas que você sequer imagine. Cria-se uma aura de eu sou melhor, de tal forma que não se aceita que aquele “menos habilidoso”produza mais do que você. E ai se repete o que citei para os negros, sem empregos, sem salários, sem acesso a educação, e isso até hoje, a transformação é lenta e morosa, mais do que para os negros.

A legislação diz que o acesso a educação deve ser universal, mas não oferece escolas. Uma grande amiga possui um filho autista, ele precisaria ficar o dia todo na escola, sendo estimulado, fazendo atividades, produzindo para aos poucos se encaixar. Escolas públicas assim não existem, e as particulares, são caras. Cadeirantes não freqüentam as aulas simplesmente porque as escolas não possuem rampas ou formas de acesso. Cegos não recebem apoio, nem material produzido em braile.

Como alguém vai lutar em igualdade de condições assim? Mesmo aqueles com maior possibilidade e estrutura familiar, com acesso a educação de qualidade, sofrem preconceitos de possíveis empregadores. Dependendo muitas vezes de cotas (e salários menores) para conseguir algum tipo de emprego.

Até hoje não consigo entender o que uma cadeira de rodas atrapalha alguém que trabalha o dia todo sentado, ou o que a falta de audição atrapalha na produção de um ilustrador. Talvez o que atrapalhe seja o medo das pessoas ditas “normais” serem superadas por pessoas que eles julgam incapazes.

Black or White – Michael Jackson

Por que chamar alguém de macaco?

Hoje, com um dia de atraso, falo sobre mais um preconceito comum. Um que se eu me levasse a sério talvez até pudesse ter sofrido com ele. O preconceito racial. Aqui no Brasil, basicamente o preconceito contra negros e índios. Nunca entendi muito bem porque isso ocorre no mundo. O que leva uma raça a ser menos do que outra na cabeça de alguém é algo que não entendo. Aliás, sou do tipo que procura abstrair raças sempre. Somos humanos e pronto.

Até a escolha da música (óbvia, eu admito) leva um pouco do que eu penso. Black or White (clique aqui para ver o clipe, vale a pena), pareceu ser uma resposta a quem criticava Michael Jackson, pela sua “mudança de cor”. Provavelmente ele tenha sido o artista mais cobrado por sua raça. Provavelmente de maneira injusta, afinal cada um sabe onde seu calo aperta e é livre para fazer o que quiser desde que não prejudique outras pessoas.

Os negros sempre foram relegados a um segundo plano na sociedade brasileira. Primeiro chegaram como escravos. Depois, formaram a classe menos remunerada (uma mulher, negra e deficiente dificilmente consegue emprego) da sociedade, sem acesso a educação inicialmente, sem acesso a chances de elevação social. A universalização do ensino é recente, antes só mesmo uma pequena parcela da população conseguia estudar além do quarto ano primário.

E justamente os negros foram os que mais ficaram afastados da escola nesse período. Sem especialização acabaram com os piores empregos, seus filhos tiveram dificuldades de vencer as barreiras erguidas pela falta de opção. Agora com o acesso as disputas pelos empregos ainda são desiguais, mas a tendência é cada vez mais essa diferença sumir.

Existem pessoas partidárias do sistema de cotas. Eu não sou um deles. Acho que deve ser melhorada a base, que a forma como as cotas foram impostas acaba gerando raiva e não soluciona muita coisa. Se as cotas fossem para pessoas de baixa renda trariam bem menos ira das pessoas e continuariam ajudando em sua maioria negros ou pardos. E mesmo assim, sem reformas graves na base, teremos apenas uma pequena parcela de negros favorecidos em meio a um mar de outros ainda sem acesso a nada no meio de toda a população.

A situação tem melhorado muito racialmente no Brasil, os movimentos negros são reconhecidos (alguns exageram, mas isso nem é tema pra discussão agora), a cultura negra é cada vez mais fortalecida. Falta mesmo é o brasileiro assumir sua raça. É engraçado como o definir-se como negro parece ser um fator financeiro (falarei disso com mais ênfase no domingo).  Negro é visto como pobre e não como um grupo racial. Muito maluco esse comportamento do brasileiro.

Até porque nosso povo é miscigenado, a mistura sempre rolou solta e faz parte da nossa cultura. Porque não aceitar isso é algo complexo demais pra mim. Aliás, complexo é aceitar que dá pra separar alguém pela cor, como se isso definisse o caráter de alguém.