Não Existe Amor em SP – Criolo

 

Raras vezes eu começo um texto tendo apenas a música como tema para o que eu quero expressar. Em geral a busca nasce do oposto. Sempre tem algo que eu quero dizer e de repente vem uma música que me ajuda a pensar um pouco sobre o tema.

Acontece que essa música está marcando tempo em meus ouvidos. Ouvi outro dia por indicação de uma amiga e depois acabou tocando no rádio algumas vezes. Justo eu que nunca fui fã de rap e hip hop me senti realmente encantado por uma música. Fui até atrás de outras produções do artista e sou obrigado a admitir, o som que ele produz ganhou mais um ouvinte.

Não existe amor em SP é a música em questão. Um rap do Criolo, músico paulistano de muita qualidade que eu confesso, desconhecia até poucos dias atrás. A música fala de uma cidade fria, como muitas vezes São Paulo parece ser. É uma sensação similar a que eu tenho quando ando pela cidade de forma despreocupada.

Para mim Sampa sempre me passa a idéia de solidão, de medo, de fobia. Por mais bela e colorida que ela possa estar, eu sempre tenho essa mesma sensação. São Paulo é uma cidade que amedronta. É incrível como em Sampa podemos achar de tudo, viver qualquer experiência e mesmo assim sobre nós paira uma aura estranha de austeridade acima da média.

Sampa para mim parece ser a cidade do fazer, não a do viver. Parece ser a cidade do estar e não a do ser. Sinto em Sampa a pressa exagerada a todo instante. Sempre todos passam correndo diante dos nossos olhos. Tudo deve ser feito com urgência, até as sensações me parecem urgentes por aqui. Isso acaba tornando tudo mais frio e de certa forma mais próximo da música do Criolo.

Lembro-me de uma conversa com amigos a algum tempo. Fomos a Atibaia fotografar o pessoal que salta de asa delta e parapente lá na Pedra Grande. Lugar lindo, próximo a capital e rápido pra chegar. Após as fotos, fomos a um barzinho da cidade. Espetos, algo bem comum em Sampa, saborosos, rápidos para fazer e a preço convidativo.  Fizemos os pedidos, fomos tomando as bebidas enquanto esperávamos a chegada dos espetos.

Eis que surge a surpresa, depois de 15 minutos, quando esperávamos já a chegada do pedido, vem o garçom dizer que não poderia nos atender, pois alguns sabores estavam esgotados. Engraçado como nós, paulistanos ficamos estressados e os atibaienses simplesmente se preocuparam em escolher novos sabores. A gente se preocupou com o tempo do atendimento, sem se tocar que tínhamos ali todo o tempo do mundo. E apesar da demora, os atendentes eram realmente simpáticos e a comida era muito boa.

É a pressa típica da cidade, mesmo quando o tempo não é uma variável, acabamos por trazê-lo ao nosso meio. Depois que percebemos isso, na verdade uma amiga que mora em Atibaia perguntou porque a gente se irritou, tudo virou motivo de piada. Mas se trouxermos isso para fora da situação, perceberemos que não temos mesmo paciência.

Não costumamos ter a paciência necessária para apreciar aquilo que a própria cidade nos oferece. A pressa nos impede de viver melhor com nossos vizinhos, amigos, colegas, etc. Tudo é feito as pressas e a cidade assim se torna sem amor. Mas a falta de amor não é culpa de Sampa. É culpa da gente que fez isso com ela. Da gente que criou um monumento a pressa composto de prédios cinza, concreto, fumaça e filas desesperadas onde todos querem tudo ao mesmo tempo, muitas vezes sem saber porquê.

Eu vejo a pressa como a principal vilã. É ela que transformar a cidade naquilo que eu e o Criolo vemos. Uma cidade onde as relações acabam sendo frias, onde tudo ganha tons cinza e um ar desesperado.

Quando a gente se dá conta disso e desacelera, nem que seja só um pouquinho, passa a ver a cidade de outra forma, passa a encontrar vida nas pessoas e sonhos nos olhares. Passa a ver cores nos prédios acinzentados e delicadeza nos passos apressados. Basta desacelerar para que o amor volte a pulsa em Sampa, mas é preciso querer isso. Você consegue desacelerar? Você consegue ver a beleza de Sampa, ou de sua cidade? Qual a sua maior pressa?

Singing in the Rain – Jamie Cullum

 

Depois de muito tempo hoje chove. Sinto até um aroma diferente no ar. Sentia falta da chuva, fica muito mais fácil respirar. Claro que eu não planejei sair de casa hoje, por isso a chuva não me atrapalha. Num fim de semana também o trânsito é menor, a pressa é menor, assim a chuva pode até ser curtida.

Escrevo isso depois de uma semana corrida, pouco tempo para dormir, menos tempo ainda para pensar e até passar por aqui. Falta tempo para tudo. Talvez por ter sobrado um pouco de tempo é que consigo hoje curtir a chuva. Ouvir ela bater no vidro da janela e tentar observar os desenhos que ela faz enquanto escorre pelo vidro, se torna uma brincadeira bastante divertida.

Coisas que antes eram bem normais de se fazer, deixar o tempo passar e não se sentir culpado por isso. Curtir o ócio e fazer dele a base para mais um período produtivo. Hoje isso não acontece mais, é só o tempo. Ele nos domina e muitas vezes nos vence. Ele nos regula e frustra, mostra como somos imperfeitos a todo instante que perdemos preciosos segundos relaxando, pensando em nosso próprio bem.

Hoje parece que tudo tem que ser feito as pressas. O  tempo sempre nos cobra algo como se ele fosse a única divindade a ser cultuada. Eu que sou ateu, tenho me visto cada vez mais cultuando o tempo. Adepto que sou da tecnologia, cada vez mais faço uso dela pra diminuir o tempo gasto em cada atividade. E o que faço com o tempo que me sobra? Arrumo mais coisas para fazer. Tudo em honra ao tempo e nunca para o homem que em teoria deveria usufruir de sua própria vida.

O grande problema dessa grande soma de atividades e busca constante pela maior produtividade está na mecanização dos atos. Falta curtir cada momento. Falta poder escrever um post como esse e poder refletir sobre o que me levou a escrevê-lo. Falta ter paciência para cozinhar um jantar mais elaborado para mim mesmo. Falta curtir uma música do começo ao fim enquanto faço nada.

Hoje foi a chuva que me fez perceber isso. Com ela a luz acabou, e eu fiquei um tempo ouvindo seu som batendo na janela e vendo os desenhos formados (eu sei já falei isso aqui no texto, mas vale a pena retomar, não será tempo perdido). Depois fui rascunhar uns textos por diversão, sem pressa e finalmente resolvi vir aqui fazer o texto do blog, isso assim que a luz voltou. Mas tudo isso sem pressa. Tudo isso no meu tempo. Dessa vez quem comanda o tempo sou eu e não o contrário como geralmente ocorre.

Nessa tarde divagando, pude pensar em como tenho aproveitado pouco meus momentos. E o pior é perceber que muitas das pessoas que convivem comigo sofrem do mesmo mal. Almoços corridos, horas no trânsito, pouco tempo em casa com a família, poucas horas de sono. E de quem é a culpa disso? Nossa, a gente que se embrenha cada vez mais no produzir e fazer. Acabamos por vezes esquendo o ser. Acabamos reduzidos somente a nossas ações porque sobra pouco espaço para nossos pensamentos e para a nossa essência.

Por isso agradeço a chuva de hoje, ela me deu tempo pra pensar em mim. Fui buscar também uma música bem antiga. Singing in the Rain, canção do filme homônimo de 1952. Época onde se tinha muito mais tempo. Hoje não consigo imaginar alguém dançando como Gene Kelly, brincando e dançando entre as poças. Já não temos tempo para “perder”com isso. E justamente para me lembrar disso é que coloquei a versão de Jamie Cullum, mais moderna e apressada, interessante, mas sem a graça e a leveza presentes na dança do antigo filme.

Você também se sente brigando com o tempo? Se sente sufocado? Pare um pouco, respire e se dê o direito de agir como Gene Kelly, totalmente despreocupado e senhor do próprio tempo.