Rhapsody in Blue – Gershwin

 

 

Aprender a ver a vida de forma mais leve é algo que persigo a tempos. A busca constante por explicações, motivos, razões me cansa. Me cansa e ao mesmo tempo é o que mais faço. Tudo deve ter um porquê. Não consigo acreditar no acaso, não consigo ser leve e nem faço piada com as minhas gramas a mais, minha cabeça não é leve, eu não consigo realmente relaxar.

Percebo isso principalmente quando por parcos momentos sou salvo dessa cela de pensamento constante por alguma pessoa bem mais sensória do que eu. E nem falo de gente que prefere sentir a pensar em todos os momentos, mas sim gente que sabe a hora de aproveitar um momento e a hora de refletir sobre o mesmo. Gente que simplesmente sabe viver de forma muito mais equilibrada

Se eu fosse ver minha vida como uma música, provavelmente seria alguma coisa de rock progressivo, provavelmente sinfônico, onde tudo é planejado com certa antecedência, até mesmo os solos são programados, não existe espaço para improvisação. E pior do que isso, é  uma música normal que se acha grandiosa e poderosa.

Eu me vejo entre os acordes rebuscados e pretenciosos. Cheios de uma fidalguia para lá de ridícula, tentando mostrar uma imponência que verdadeiramente não está ali. Enfim, um som quase artificial, quase sem alma, cheio de técnica, mas técnica vazia que aparentemente não leva pra muito longe. A gente acaba ficando preso sem poder sonhar.

Nessas horas eu penso que poderia ser um pouco mais jazz. Ter sim técnica, mas principalmente coração. Saber sentir o sabor do vendo que toca a minha pele e a ele reagir de alguma forma. Ir além da teoria que me diz que o vento é o ar em movimento ou da curiosidade em saber quais os gases que constituem esse ar que me toca. Quero aprender a saborear o toque, quero entender qual o prazer estranho que se tem no contato com uma brisa que sabe-se lá porque (ok, eu sei, mas isso não importa) vem fresca do mar até meu rosto que observa o oceano da praia.

Vez ou outra encontro gente que me faz lembrar disso. Do sabor do sentir por sentir. Engraçado como essas pessoas me encantam. Me apaixono facilmente por gente assim. Em geral são pessoas que me mostram o quando tudo poderia ser mais simples se eu conseguisse seguir apenas o roteiro básico. Entender que o mundo está ai sim para ser lido e decifrado, mas que só tem graça tudo isso se além de decifrar a gente também conseguir curtir e apreciar. Ser surpreendido não é ruim, muito pelo contrário, eu não precisaria ter medo disso.

Poderia muito bem levar a vida numa sintonia mais jazz, onde pequenos caminhos importantes até servem de guia, mas o que importa é  o que eu faço a partir do momento em que chego no caminho. Posso ouvir mil gravações de qualquer grande standart e verei as diferenças entre todas elas. Miles Davis, Coltrane, Ellington, Marsalis, muita gente que adora se juntar (algo que eu também preciso aprender) e variar os mesmos temas de forma cada vez mais espontânea e graciosa. Existe sim um virtuosismo acentuado nisso tudo, mas mais do que isso, existe sentimento. Engraçado que justamente os dois estilos musicais que eu mais gosto fazem parte desse post. Até escolhi Gershwin, por sua música transitar facilmente entre a sisudez do clássico (e por tabela do rock progressivo) e a leveza do jazz.

E eu preciso acessar isso, preciso aprender a acessar os sentimentos e torná-los parte de mim. Preciso aprender também a me juntar aos outros. Encontrar a chave para se aproximar de quem gosta ou pode vir a gostar de mim. Ampliar os horizontes e assim quem sabe afastar a solidão que tanto tem me incomodado. Porque não é errado substituir uma boa música por outra, o erro está em querer sempre a mesma melodia.