Jokerman – Bob Dylan

As vezes só uma piada nos mantém a sanidade

 

Continuando a saga dos Watchmen, hoje falo do Comediante, Eddie Blake com certeza é o personagem que melhor encarna a preocupação da população que picha paredes com a frase Who Watches the Watchmen (traduzindo como algo parecido com quem vigia os vigilantes). Até a escolha de seu codinome é ácida. O tal senso de humor desse comediante é corrosivo e perigoso. A forma como ele vê o mundo funciona como uma caricatura de tudo o que acontece.

Partindo para uma linha mais popular de quadrinhos, alguns aspectos do Comediante lembram o Batman pós Cavaleiro das Trevas (lançado no mesmo ano, 1986). Uma tentativa de tentar criar um tipo de entretenimento mais adulto. O Comediante tem um quê de Batman e um quê de Coringa. O sarcasmo é forte, o riso apocalíptico escondido em seus comentários lembra bastante o palhaço do crime. A trilha sonora escolhida segue essa linha. O bardo Bob Dylan cantando Jokerman (clique aqui para ver e ouvir). Os versos parecem traduzir a mente tortuosa do Comediante. Alguém que conhece tão bem o lado obscuro da alma humana que se vale do sarcasmo para manter o que lhe resta de sanidade.

O único momento em que ele parece sucumbir ao peso que carrega e ao olhar questionador que tem do mundo. Quando visita seu antigo inimigo Moloch. O seu choro sincero e o aparente desespero (mais visíveis nos quadrinhos do que no filme) o tornam mais real e factível. Não diria mais humano, porque encaro o seu sarcasmo violento como uma leitura totalmente humana e válida da sociedade.

Ao rir da sociedade doente, o Comediante não está fazendo nada diferente do que fazer uma análise crítica também do mundo em que nós vivemos. Uma sociedade em que notícias como essa (clique para ler) aparecem. Alguém é atacado numa livraria sem qualquer motivo e sem ter tempo algum para reagir. Coisas de um mundo doente que me fazem acreditar mesmo que momentaneamente, numa frase do Comediante: “Nós os protegemos deles mesmos.”

Entrei em férias a poucos dias e tirando a minha famosa fobia social do centro da conversa, caminhei por alguns locais perto de casa. Fui ao mercado para ser mais exato. No caminho, fui hostilizado devido a camisa que eu vestia. E vendo o rosto das pessoas, percebia-se o medo estampado em alguns e o desejo de violência em outros, esperando que eu respondesse algo para que existisse na mente tacanha de alguns, motivo suficiente para se iniciar uma briga.

É nesse mundo pesado que estamos inseridos. Vale a pena viver nele? Esse é um questionamento maluco, mas que merece ser feito. Vale a pena existir num lugar assim tão opressivo? Vale a pena cuidar de um grupo para que ele não se mate? Vale a pena investir nosso esforço nisso?

A sensação que muitas vezes tenho é a de que só sendo meio pirado como o Comediante é para conseguir manter-se minimamente tranqüilo nessa nossa realidade torpe. Você tem que fazer aquilo que tem que ser feito e não se envolver emocionalmente com nada. Você observa gente que poderia fazer (falo de uma cena específica da história, quando você ver vai se lembrar) acaba se omitindo por motivos diversos.

Eu nesse contexto me sinto um completo inútil e assumo que não gosto de viver num lugar como esse. As opções pra pessoas que pensam como eu são duas. Desistir e abraçar o suicídio (ou a vida suicida que o Comediante de certa forma adotou) ou tentar mudar, o problema é descobrir como mudar  e principalmente o pior é descobrir que a maioria não quer que nada muda.

Alívio Imediato – Engenheiros do Hawaii

Um lugar tranquilo que remeta a paz pode virar palco de uma guerra
Um lugar tranquilo que remeta a paz pode virar palco de uma guerra

As atitudes imbecis que tomamos salvos pela desculpa do preconceito nunca passam impunes. Sempre machucamos alguém ou prejudicamos grupos nessas ações impensadas. Em alguns casos o preconceito é tão forte e tão sem sentido que carregam não apenas uma pessoa, mas diversas pessoas em uma mesma direção sem sentido. Ondas de ódio que crescem e crescem a cada momento, e de repente sem qualquer motivo aparente, pessoas brigam. Surgem guerras e sangue jorra. Seja entre duas nações, seja entre duas cidades, seja entre torcedores de times diferentes, seja de adoradores de deuses diferentes. Infelizmente essas guerras nunca fazem sentido.

É claro que existem motivos políticos, disputas por terras, disputas por dinheiro, muita coisa envolvida em conflitos diversos que observamos por ai. Porém, mesmo estes motivos políticos são sempre questionáveis. É a idéia da dominação plena sempre. Talvez por isso eu tenha escolhido a música que separei. Gosto bastante de Alívio Imediato (clique aqui para ver um clipe da música), uma letra meio nonsense como a grande maioria das canções dos Engenheiros do Hawaii que fala de conflitos diversos e da busca de alívio através da chuva ou da noite. Busca-se a redenção através de algum fenômeno natural, porque provavelmente se dependermos do homem, esse alívio nunca chegará.

Não que eu seja contra a luta pelo que se acredita. Penso que em alguns casos, para defesa, é necessário sim erguer as armas e garantir a própria sobrevivência. Não se pode aceitar tudo o que surge sem se defender, sem tentar garantir a sobrevivência de seu povo e de suas idéias. Porém, sou contra o uso da força para impor algo a outrem, sempre se deve existir negociação, conversa, deve-se evitar a violência.

O que acaba incomodando mais é que quase sempre são utilizados artifícios absurdos para validar o início desses conflitos. Ai preconceitos são inventados, reforçados e ampliados. A população, que se transforma em massa de manobra, é engolida por esses preconceitos. Esse trabalho é feito de tal forma e com tanta eficiência que logo a mídia passa a vender aquilo como correto e todo mundo passa a aceitar o conflito como legítimo, inclusive apoiando as mortes geradas nos combates.

Exemplos para esse tipo de ação existem aos montes. O problema é que o que resta é sempre a versão que o vencedor tem dos fatos. Racionalizar sobre isso torna-se complexo, mas esse exercício de análise é sempre enriquecedor. Será que sempre os vencidos são os vilões? Será que existem vilões? Qual a fonte de tanta ira? Essas são algumas das perguntas que eu pretendo tentar discutir a partir de hoje, provavelmente nessa semana e na próxima. Quer citar algum tipo de conflito para ser comentado? Aguardo seu comentário.

"… toda vez que falta luz o invisível nos salta aos olhos …"

As vezes a luz está tão distante que só nos restam as trevas
As vezes a luz está tão distante que só nos restam as trevas

Neste post quero dar continuidade a idéia da mudança de comportamento que as vezes nos atinge. Ontem estava lendo uma revista do Batman (poxa pessoa não levem a mal, eu adoro quadrinhos, leio bastante, chego quase a colecionar). Numa das histórias, a que abre a revista, a trama gira em torno de uma armadura que quando vestida faz com que quem a vestiu passe a ter ações mais violentas. No caso do homem-morcego, o que aflorava era uma vontade imensa de matar os bandidos e não prendê-los.

E o que isso tem a ver com o último post? Tudo. No último post, eu discuti o que o sentimento de traição causava em mim e a forma como eu me sinto incomodado com uma situação que de certa forma estou vivendo. Tudo bem que o traidor sou eu mesmo, mas a traição me incomoda e me faz agir de forma diferente.

Existem sempre os gatilhos que nos tiram do eixo e que parecem liberar o nosso lado mais sombrio. As pessoas mais ponderadas que eu conheço, em determinados momentos de sua vida, acabam cometendo atos que parecem ser realização de outras pessoas. Seja um ato intempestivo, uma discussão fora de hora, cenas de choro e desespero ou até mesmo violência.

Em alguns momentos os fantasmas conseguem se libertar de sua prisão em nossa mente
Em alguns momentos os fantasmas conseguem se libertar de sua prisão em nossa mente

Ai fiquei pensando em meus fantasmas. Tudo aquilo que escondo no meu lado mais sombrio. No geral, quando saio do eixo, a violência que uso é mais verbal, por sorte tive juízo pra evitar nomes e acusações diretas no último post. Uma atitude constante nos meus momentos de falta de controle é me isolar. No geral eu costumo fugir de qualquer pessoa que se aproxime, e quando essas pessoas se aproximam, torno-me altamente mal educado e ácido. Conseguir evitar besteiras no trabalho (afinal trabalho com pessoas) confesso que é algo complexo demais.

Nesses momentos costumo ser frio com as palavras, escrevo de forma mais ácida e crítica, confesso que precisei de muita calma pra não citar nomes no último post. Confesso ainda que mais engraçado foi ter recebido pedidos de desculpas de pessoas que nada tinham a ver com o post. Admito que depois disso também fiquei com vontade de pedir desculpas para algumas pessoas, gente com a qual certamente pisei na bola da mesma maneira como pisaram no meu calo mais sensível a ponto de me fazer escrever o que escrevi.

Teve gente que me perguntou se a pessoa que me causou tamanha raiva se desculpou, bom eu nem sei se a pessoa lê esse blog, provavelmente não. Mas isso não importa, até porque o que eu queria levantar mesmo era a traição universal, não o sentimento que EU sinto, mas o que TODOS sentem.

E agora assumo o medo real que sinto de vestir a tal armadura do batman, de liberar meus fantasmas e agir de formas que eu imagino não serem corretas. Como o homem-morcego, também tenho medo de num apagar de luzes eu perceba que na verdade esses fantasmas que eu prendo são a minha verdadeira essência e que a prisão que eu criei para estes fantasmas seja apenas uma máscara.

Provavelmente eu seja um pouco dos dois lados, algo na linha nada é 100% bom nem 100% ruim. Provavelmente o que sirva de prisão pra uma parte desse lado sombrio seja apenas convenção social. Afinal muito do comportamento vem da relação com o outro, como um espelho (e ai que eu sinto raiva e a idéia de traição ganha forma, todo mundo joga esse jogo, mas alguns seguem apenas as regras que lhes convém).

A vida em sociedade é o que prende os comportamentos que nos envergonham
A vida em sociedade é o que prende os comportamentos que nos envergonham

É nessas horas que ao fechar os olhos para dormir, todos os fantasmas abrem suas celas na prisão da mente e surgem diante dos meus olhos, como descrito de forma indireta nos versos da música Pianobar do grupo Engenheiros do Hawaii que dá nome ao post.

Você também tem seus fantasmas? Quer falar sobre eles? Quer que algum tema seja discutido nesse espaço? Deixe um comentário.

Aliás, ainda não esqueci os dois temas que estou devendo, apenas estou coletando informações para falar deles com mais segurança.

“… toda vez que falta luz o invisível nos salta aos olhos …”

As vezes a luz está tão distante que só nos restam as trevas
As vezes a luz está tão distante que só nos restam as trevas

Neste post quero dar continuidade a idéia da mudança de comportamento que as vezes nos atinge. Ontem estava lendo uma revista do Batman (poxa pessoa não levem a mal, eu adoro quadrinhos, leio bastante, chego quase a colecionar). Numa das histórias, a que abre a revista, a trama gira em torno de uma armadura que quando vestida faz com que quem a vestiu passe a ter ações mais violentas. No caso do homem-morcego, o que aflorava era uma vontade imensa de matar os bandidos e não prendê-los.

E o que isso tem a ver com o último post? Tudo. No último post, eu discuti o que o sentimento de traição causava em mim e a forma como eu me sinto incomodado com uma situação que de certa forma estou vivendo. Tudo bem que o traidor sou eu mesmo, mas a traição me incomoda e me faz agir de forma diferente.

Existem sempre os gatilhos que nos tiram do eixo e que parecem liberar o nosso lado mais sombrio. As pessoas mais ponderadas que eu conheço, em determinados momentos de sua vida, acabam cometendo atos que parecem ser realização de outras pessoas. Seja um ato intempestivo, uma discussão fora de hora, cenas de choro e desespero ou até mesmo violência.

Em alguns momentos os fantasmas conseguem se libertar de sua prisão em nossa mente
Em alguns momentos os fantasmas conseguem se libertar de sua prisão em nossa mente

Ai fiquei pensando em meus fantasmas. Tudo aquilo que escondo no meu lado mais sombrio. No geral, quando saio do eixo, a violência que uso é mais verbal, por sorte tive juízo pra evitar nomes e acusações diretas no último post. Uma atitude constante nos meus momentos de falta de controle é me isolar. No geral eu costumo fugir de qualquer pessoa que se aproxime, e quando essas pessoas se aproximam, torno-me altamente mal educado e ácido. Conseguir evitar besteiras no trabalho (afinal trabalho com pessoas) confesso que é algo complexo demais.

Nesses momentos costumo ser frio com as palavras, escrevo de forma mais ácida e crítica, confesso que precisei de muita calma pra não citar nomes no último post. Confesso ainda que mais engraçado foi ter recebido pedidos de desculpas de pessoas que nada tinham a ver com o post. Admito que depois disso também fiquei com vontade de pedir desculpas para algumas pessoas, gente com a qual certamente pisei na bola da mesma maneira como pisaram no meu calo mais sensível a ponto de me fazer escrever o que escrevi.

Teve gente que me perguntou se a pessoa que me causou tamanha raiva se desculpou, bom eu nem sei se a pessoa lê esse blog, provavelmente não. Mas isso não importa, até porque o que eu queria levantar mesmo era a traição universal, não o sentimento que EU sinto, mas o que TODOS sentem.

E agora assumo o medo real que sinto de vestir a tal armadura do batman, de liberar meus fantasmas e agir de formas que eu imagino não serem corretas. Como o homem-morcego, também tenho medo de num apagar de luzes eu perceba que na verdade esses fantasmas que eu prendo são a minha verdadeira essência e que a prisão que eu criei para estes fantasmas seja apenas uma máscara.

Provavelmente eu seja um pouco dos dois lados, algo na linha nada é 100% bom nem 100% ruim. Provavelmente o que sirva de prisão pra uma parte desse lado sombrio seja apenas convenção social. Afinal muito do comportamento vem da relação com o outro, como um espelho (e ai que eu sinto raiva e a idéia de traição ganha forma, todo mundo joga esse jogo, mas alguns seguem apenas as regras que lhes convém).

A vida em sociedade é o que prende os comportamentos que nos envergonham
A vida em sociedade é o que prende os comportamentos que nos envergonham

É nessas horas que ao fechar os olhos para dormir, todos os fantasmas abrem suas celas na prisão da mente e surgem diante dos meus olhos, como descrito de forma indireta nos versos da música Pianobar do grupo Engenheiros do Hawaii que dá nome ao post.

Você também tem seus fantasmas? Quer falar sobre eles? Quer que algum tema seja discutido nesse espaço? Deixe um comentário.

Aliás, ainda não esqueci os dois temas que estou devendo, apenas estou coletando informações para falar deles com mais segurança.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”

nunca cause dor no outro por descaso
nunca cause dor no outro por descaso

Tem situações em que nós ficamos tomados pela raiva. Loucos de desejo de vingança. Algumas ações nos tiram do sério de tal forma que acabam expondo nosso pior lado. O bom senso se perde, junto com ele toda a tão bem desejada boa índole e respeito ao próximo somem de forma rápida e direta.

A sensação de sentir-se traído é uma dessas situações. Sentir-se enganado é terrível. E é justamente assim que tenho me sentido a alguns dias. Na verdade essa sensação incômoda vem e vai a algum tempo. antes das piadinhas maldosas, não é a típica dor de corno, afinal um solteiro não pode sentir esse tipo de dor.

Tem dias em que dói muito, como hoje. Sinto-me traído no ponto mais íntimo. O descaso as vezes é o que mais incomoda. É claro que fazer qualquer coisa esperando uma resposta específica de alguém é no mínimo burro e totalmente imbecil, mas algumas coisas são realmente padronizadas.

Espera-se encontrar carinho como resposta para carinho, respeito como resposta para o respeito e descaso como resposta para o descaso. Sei que essa linha é totalmente pavloviana, mas a não ser que ações absurdas tenham sido condicionadas no ser, a resposta padrão esperada é essa. Você não trata com descaso quem te trata com respeito. Ao menos eu não espero isso de ninguém que eu realmente respeite.

É ai que eu vejo traição. Falo da traição existente na quebra desse protocolo social. Me sinto traído algumas vezes por causa disso. Tem gente que se sente usado, eu nunca me sinto usado. Faço algo por alguém porque quero bem essa pessoa, faço algo por alguém porque de certa forma me faz bem ver o outro bem. O que incomoda muitas vezes é um tipo velado de descaso.

as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga
as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga

Até entendo o motivo deste descaso, dos tais sumiços e de certa forma respeito isso. é um direito de cada um agir como quiser, fazer o que quiser e buscar aquilo que lhe é necessário nos momentos em que surgem os problemas. A forma como isso é feito também é uma arma de cada um, cada pessoa faz o que acha justo e correto.

Se eu entendo a ação, por que me sinto traído? Nunca esperei prontidão, o carinho, ou o desapego com que trato algumas questões, isso é a forma como eu atuo, cada um tem a sua. Mas respeito é algo simples. Alguns sentimentos são absurdamente primários, principalmente os meus, eu sou sentimentalmente primário, não acesso sentimentos mais complexos em relação ao outro, vou pouco além do gosto e não gosto. Queria apenas saber o que realmente acontece, me sinto jogado no vazio muitas vezes.

ações simples podem salvar alguém
ações simples podem salvar alguém

E pior do que a traição do outro é a minha própria traição. Viver já não é fácil. Se traindo fica mais difícil ainda. E nesse aspecto eu me traio muito. Parece que acredito em contos de fadas que eu mesmo crio como falsas esperanças para um mundo aparentemente melhor, que na verdade não é melhor. Sei que deveria dizer não algumas vezes, mas também assumo que nunca vou fazer isso. Se assim o fizer fica a sensação de saber que poderia ter feito algo simples pra alguém que faria a diferença e não fiz, por mais que isso me magoe (e magoa no final), fazer é muito mais prático.

Nesse desabafo todo, no fundo eu acho que só queria que as pessoas todas se lembrassem da frase escrita por Saint-Exupéry (eu odiei ler o Pequeno Príncipe, mas tenho que admitir que ele merece ser lido): “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"

nunca cause dor no outro por descaso
nunca cause dor no outro por descaso

Tem situações em que nós ficamos tomados pela raiva. Loucos de desejo de vingança. Algumas ações nos tiram do sério de tal forma que acabam expondo nosso pior lado. O bom senso se perde, junto com ele toda a tão bem desejada boa índole e respeito ao próximo somem de forma rápida e direta.

A sensação de sentir-se traído é uma dessas situações. Sentir-se enganado é terrível. E é justamente assim que tenho me sentido a alguns dias. Na verdade essa sensação incômoda vem e vai a algum tempo. antes das piadinhas maldosas, não é a típica dor de corno, afinal um solteiro não pode sentir esse tipo de dor.

Tem dias em que dói muito, como hoje. Sinto-me traído no ponto mais íntimo. O descaso as vezes é o que mais incomoda. É claro que fazer qualquer coisa esperando uma resposta específica de alguém é no mínimo burro e totalmente imbecil, mas algumas coisas são realmente padronizadas.

Espera-se encontrar carinho como resposta para carinho, respeito como resposta para o respeito e descaso como resposta para o descaso. Sei que essa linha é totalmente pavloviana, mas a não ser que ações absurdas tenham sido condicionadas no ser, a resposta padrão esperada é essa. Você não trata com descaso quem te trata com respeito. Ao menos eu não espero isso de ninguém que eu realmente respeite.

É ai que eu vejo traição. Falo da traição existente na quebra desse protocolo social. Me sinto traído algumas vezes por causa disso. Tem gente que se sente usado, eu nunca me sinto usado. Faço algo por alguém porque quero bem essa pessoa, faço algo por alguém porque de certa forma me faz bem ver o outro bem. O que incomoda muitas vezes é um tipo velado de descaso.

as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga
as vezes é simples tirar do rio alguém que se afoga

Até entendo o motivo deste descaso, dos tais sumiços e de certa forma respeito isso. é um direito de cada um agir como quiser, fazer o que quiser e buscar aquilo que lhe é necessário nos momentos em que surgem os problemas. A forma como isso é feito também é uma arma de cada um, cada pessoa faz o que acha justo e correto.

Se eu entendo a ação, por que me sinto traído? Nunca esperei prontidão, o carinho, ou o desapego com que trato algumas questões, isso é a forma como eu atuo, cada um tem a sua. Mas respeito é algo simples. Alguns sentimentos são absurdamente primários, principalmente os meus, eu sou sentimentalmente primário, não acesso sentimentos mais complexos em relação ao outro, vou pouco além do gosto e não gosto. Queria apenas saber o que realmente acontece, me sinto jogado no vazio muitas vezes.

ações simples podem salvar alguém
ações simples podem salvar alguém

E pior do que a traição do outro é a minha própria traição. Viver já não é fácil. Se traindo fica mais difícil ainda. E nesse aspecto eu me traio muito. Parece que acredito em contos de fadas que eu mesmo crio como falsas esperanças para um mundo aparentemente melhor, que na verdade não é melhor. Sei que deveria dizer não algumas vezes, mas também assumo que nunca vou fazer isso. Se assim o fizer fica a sensação de saber que poderia ter feito algo simples pra alguém que faria a diferença e não fiz, por mais que isso me magoe (e magoa no final), fazer é muito mais prático.

Nesse desabafo todo, no fundo eu acho que só queria que as pessoas todas se lembrassem da frase escrita por Saint-Exupéry (eu odiei ler o Pequeno Príncipe, mas tenho que admitir que ele merece ser lido): “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”