My Funny Valentine – Ron Carter Quartet

 

 

As férias acabaram, voltando aos poucos a rotina de aulas, correria e também aos textos. Estou de mudança, tentando organizar a vida e fazendo coisas que devia ter feito nas férias, mas como não dependiam de mim, acabei protelando e com isso até ficando afastado daqui. Mas fiz muita coisa, vi muita coisa e principalmente percebi muita coisa acontecendo.

Vi no meu último dia de férias, o melhor show da minha vida. Terei que encontrar um show muito especial para me fazer esquecer ou ao menos tirar do foco o ótimo show do Ron Carter que vi no auditório Ibirapuera. Não sou um grande conhecedor de Jazz, mas aprecio imensamente o gênero, o que me falta em conhecimento sobra em apego pelo que ouço.

O jazz é um som que me faz sonhar. Me leva longe e me faz ver histórias. Isso me faz pensar em outra frase marcante que tive acesso nas férias. O que é mais importante? Viver uma história ou contá-la? Confesso que ainda não consigo ter uma opinião formada sobre o tema, não sei qual das opções é a melhor, muito menos a mais fácil. Mas isso fica pra outros textos.

Por enquanto quero falar daquele senhor de 75 anos que com sua banda e seu som me fez por uma hora e meia sentir-se pleno e feliz. Fiquei grande parte do show buscando encontrar os vazios que eram preenchidos o tempo todo de forma sutil por um percussionista inspirado e bastante cativante. Os solos de todos os artistas faziam a gente suspirar. E pra finalizar a fala sobre isso, nunca ouvi uma versão tão linda de My Funny Valentine.

E pensar em quantas vezes eu sonhei acordado. Em quantas vezes mesmo tendo concentração num ponto, em um momento ou outro veio um pensamento desses livres me relaxar e me deixar melhor para fazer aquilo que eu tinha que fazer. Quantas vezes esse leve devaneio salvou minha sanidade. Porque as vezes a realidade é tão dolorosa que só mesmo a leveza do sonho nos mantém firmes o suficiente para encarar todos os problemas que teimam em surgir.

É nesse ponto que eu vejo o papel das artes. Elas servem para nos fazer sonhar. Elas trazem a visão dos artistas sobre determinados assuntos de um jeito que nos faz ver além da dor, além da alegria, além do medo, muito além de qualquer sensação. São visões diferentes que servem para mostrar aos olhos do mundo que existe sim uma maneira diferente de se pensar, existe mais de uma forma de analisar cada problema e mesmo de se curtir cada vitória.

Pinturas, esculturas, poemas, romances, fotos, desenhos, músicas, peças, filmes. Objetos artísticos independente da forma de expressão que sigam, falam do modo humano de pensar e sentir e por isso mesmo atuam como uma válvula de escape e uma porta para os sonhos mais profundos que alguém pode ter.

Por isso  eu aguardo o próximo show que vai me encantar, a próxima música a me prender, o próximo livro a me fazer chorar, a próxima foto encantadora (será que eu serei capaz de fazer essa foto?). Eu aguardo a próxima arte a me fazer perceber o quanto eu sou humano. Porque só o sonhar acordado é que realmente mantém minha sanidade.