The Right Thing – Simply Red

 

 

Volto hoje ao livro Slam. Para variar, o texto do Hornby me deixou saudades novamente e trouxe um monte de idéias em minha cabeça. Eu gosto quando isso acontece, isso mostra que eu consegui fazer uma leitura não linear do texto e principalmente mostra que eu realmente tenho algo a dizer sobre o que eu li, não me parece ser algo forçado.

Sobre o Slam, no domingo passado, eu já falei sobre a idolatria, discuti a forma como o Sam faz uso do Tony Hawk como guru para os passo que dá em sua vida e da forma como eu lido com esse tipo de coisa. Hoje quero falar do enredo base e do título do livro.

O autor chama de “slam” as quedas dos skatistas no meio das manobras, as grandes quedas, aquelas perigosas que acabam machucando. Sam teve o seu slam, não em cima do skate, mas na vida, quando engravidou Alícia e ficou perdido. Não vou aqui falar de gravidez adolescente, pelo menos não agora. Mas acho que vale a pena falar das grandes quedas da nossa vida. Ainda mais no final do ano, período em que todo mundo repensa sua vida, faz planos pro futuro e tenta corrigir as besteiras que fez nos últimos 365 dias.

Fico pensando nos meus slams, ainda nem me recuperei do último ainda e com certeza já devo estar a caminho do próximo. Não que eu busque as quedas ou goste de me machucar. Como diz a música escolhida eu sempre quero fazer a coisa certa. Todo mundo quer fazer a coisa certa sempre. O problema é que saber o que realmente é certo é praticamente impossível antes da ação. Mais do que isso, fazer a coisa certa não significa evitar o tombo. Na verdade, muitas vezes a escolha certa é a que nos faz perder dentesou quebrar ossos no half pipe, porque o certo é também nãoi fugir das responsabiidades.

As vezes a queda também se deve ao acaso e nada podemos fazer para evitar. Eu nem sei de onde veio a minha queda. Afinal, sinceramente as marcas não estão no corpo, visíveis, estão nas idéias e nas sensações. Estão naquilo que me prende e me faz não ter coragem pra seguir adiante as vezes. As cicatrizes mais feias não são aquelas que podem ser vistas, são aquelas que apenas são sentidas e que no campo dos sentimentos nunca encontram cura.

A sensação de perceber que você só se machucou porque seguiu seus princípios e fez a coisa certa é mais maluca ainda. Você se sente meio “trouxa”. Imagina que poderia ter se livrado daquilo tudo se não tivesse atendido o telefone ou se não tivesse lido o e-mail. Pensa que seria muito mais fácil não ter princípios e não ajudar só porque de alguma forma isso te machuca.

Eu, pelo menos hoje, já sei que por mais que eu queira não consigo nunca abstrair 100% aquilo que sinto. As emoções podem até ser escondidas, mas não totalmente sublimadas. Mesmo que eu queira e acredite que isso deveria acontecer não tenho todo esse controle sobre meus sentimentos. Aliás, eu acho que ninguém tem.

Pensando no livro, Sam tem como primeira reação de seu slam a fuga. Vai para um lugar distante tentando esquecer suas obrigações, fugir daquilo que parecia um grande pesadelos do que nunca iria acordar. Eu já tentei agir como ele nesse momento algumas vezes. Confesso que nunca foi bom. Era difícil adormecer pensando que eu estava fazendo a coisa errada naquele momento. Nem eram situações tão pesadas e densas como a citada do livro. Eu nunca fui pai, nem cheguei perto disso. Mas pra mim, ignorar quem precisa de mim, não fazer a minha parte só porque vai me doer em algum momento da vida me parece algo muito mesquinho. Mesquinho demais pra suportar.

Justamente por não suportar é que eu me jogo várias vezes do alto da rampa sem a proteção necessária. Deixo o skate sair dos meus pés e sei que vou quebrar novamente o coração. Não importa, no fundo a dor acaba sendo menor do que a que eu sentiria se não fizesse a coisa certa.

Hoje eu percebo que só existem duas formas de não sofrer nas nossas escolhas mais íntimas. A primeira é não vivendo, se situando numa redoma de vidro separada de todos, sem interagir com ninguém. Uma vida morta que imagino que não seja agradável a ninguém. A segunda é ser insensível a tudo, aos seus sentimentos e aos dos outros. É conseguir ser egocêntrico a um nível absurdo, onde só importa o próprio prazer e nada mais. Até conheço gente assim, infelizmente elas existem. Pena que nem pra essas pessoas eu consigo negar um alento as vezes.

Eu nem as culpo por serem assim, em alguns momentos até gostaria de ser um pouco assim como elas. Eu sofreria menos tombos como o que me incomoda agora. Um tombo em que nem tenho a quem culpar. A escolha foi minha, a ação foi minha e eu sei que não dá pra reclamar quando a gente toma apenas a direção necessária pra fazer a coisa certa.

Você já se sentiu assim? Com dores no peito e com olhos pedindo lágrimas por ter feito algo que sua consciência diz que era correto? Hoje mudaria sua ação?

Na quarta-feira devo colocar mais um post sobre o que o livro me fez pensar.