O Homem é esperto, mas a morte é mais – Ira

Fugir é mais corajoso do que fazer o outro pagar por seus erros

Teve gente que me perguntou porque eu estava demorando tanto pra escrever. A bem da verdade era pra este ser meu último texto, mas algumas coisas (in)felizmente mudaram. Continuo falando da minha visão a partir da observação dos personagens de Watchmen. Hoje é a vez de Ozymandias, o tal homem mais inteligente do mundo. Enquanto escrevo, três músicas tocam alternadamente e uma delas dá nome ao post. O homem é esperto mas a morte é mais do Ira (clique para ver e ouvir), Trip at the brain do Suicidal Tendencies (clique para ver e ouvir) e a bastante divertida e mordaz(quase virou título do tópico) Elza dos Mulheres Negras (clique para ver e ouvir).

Tendo largado a vida heróica antes da proibição governamental e sendo extremamente rico, Adrian Veidt sempre se vendeu como o homem mais inteligente do mundo, com total controle do seu corpo era tão veloz que conseguiu até pegar balas com as mãos. Uma figura estranha e bastante manipuladora. No fundo Adrian é o grande vilão da história, vai aos poucos caçando (e desacreditando) aqueles que ele julga poderem atrapalhar seu plano de “salvamento” do mundo.

Para ele, desastres globais fariam o homem deixar suas diferenças de lado e levariam ao fim das guerras, no caso da história, a Guerra Fria seria findada e o mundo entraria num período de paz. Mas a que custo? Ao custo de milhares de vidas que nem saberiam o que estava acontecendo, tudo porque Adrian Veidt acreditava ser este o caminho.

Por acaso a sua forma de ação acaba funcionando, pelo menos até certo ponto, e isso até onde a história termina. O leitor é levado à dúvida pela cena final. Mas confesso que isso não importa. A análise que quero fazer aqui é outra. Quero levar a discussão para a pressunção de Veidt. Ele realmente acredita poder decidir por todo o mundo o que é certo e o que é errado. E nesse ponto consegue ser mais insensível que o Dr. Manhattan. Sua verdade está acima da verdade de todos os outros porque ele é mais inteligente do que todos os outros e ele carregará o fardo da escolha que não disponibilizou a mais ninguém.

Em uma escala menor, quantas vezes não agimos de forma parecida e a meu ver covarde? Quantas vezes não acreditamos que a nossa visão sobre determinado tema é a correta e o mundo todo deve acatar isso sem questionamento algum? Não sei se enxergo isso como prepotência ou covardia. Provavelmente um pouco dos dois e recheado com bastante medo, medo de ouvir uma opinião diferente da nossa num assunto que diga respeito a mais pessoas.

Porque falar disso agora? Eu sinceramente tinha em minha cabeça a idéia de me matar agora na virada do ano. Sem motivo especial para escolha da data mas com motivos pessoais mil pra encerrar uma situação que me incomoda a muito tempo. Vendo Ozymandias sacrificar outras pessoas ao invés de resolver o problema da forma mais honesta me pareceu covardia. Se ele (assim como eu) não se acostuma e nem gosta do mundo em que está inserido mas percebe que as pessoas ao seu redor gostam, quem deve se retirar do mundo? As pessoas que gostam dele? Óbvio que não.

Já deve ter dado pra perceber nos diversos posts desse blog que eu não consigo me sentir a vontade aqui. E confesso que não culpo ninguém por isso. O problema é apenas meu, o lugar não me agrada eu deveria ter o direito de me retirar dele e deixar espaço pra quem se sente confortável e adora isso aqui. Afinal as escolhas deveriam ser sempre pessoais. No meu caso, pelo menos por enquanto tenho que abortar o projeto, algumas pessoas precisam de mim nesse momento e simplesmente não posso cair fora como gostaria. O jeito é tentar me incomodar o mínimo possível com a forma como esse mundo e eu nos relacionamos. Depois de quase 35 anos, acho pouco provável começar a apreciar a vida de forma plena como vejo a maioria das pessoas fazendo, então é fazer o que deve ser feito da melhor maneira possível enquanto o tempo passa.

Aqui vale retornar ao pensamento maluco do Adrian Veidt. Ele escolheu um modelo, acreditava que poderia ser até maior do que ele e de certa forma foi a única pessoa com quem se relacionou. Eu não sou nem tão pirado e muito menos tão “inteligente” quanto Ozymandias, me relaciono com mais gente, interajo mais, só não me sinto feliz com isso. Poucas vezes fui feliz, pra ser bem honesto.

Talvez a nossa maior diferença seja o fato de que eu não consiga ver as pessoas de cima (e nem poderia fazer isso, sou como qualquer um). Esse achar-se superior a mim parece mais uma defesa do que realidade. Uma forma de fugir do seu verdadeiro mundo é tentar controlar o mundo dos outros, não aceitando as falhas que se tem e muito menos reconhecendo os diversos erros que cometemos.

O problema maior é conviver com a nossa pequenez diante de tudo o que nos cerca. Situações corriqueiras nos mostram que simplesmente aquela situação não é para nós e o máximo que podemos fazer é sairmos da situação ou aceitarmos o meio e apesar de toda dor sentida continuarmos existindo dentro desse mundo. Cada um faz as suas opções. Eu tive que refazer as minhas.

The Sound of Silence – Simon & Garfunkel

Quando o som do silêncio nos traz medo e desespero é sinal de que o limite está chegando

Hora de buscar outras fontes pra escrever. Infelizmente acabou a sequência em cima do Uma Longa Queda do Nick Hornby. Agora as ideias estão fluindo a partir de uma história em quadrinhos que virou filme. Eu adoro quadrinhos, acho uma linguagem super divertida. E como gosto de ver filmes, quando juntam as duas linguagens geralmente procuro saber qual foi o resultado final.

Só consegui assistir Watchmen hoje, e isso porque o final já saiu em DVD a um certo tempo (quase um mês). Eu adorei a história criada por Alan Moore, junto com Sandman e talvez Hellblazer é o que eu já li de mais interessante no universo dos quadrinhos. Confesso que fiquei com medo do filme. Fiquei imaginando se iriam dar uma pasteurizada nos personagens, tirar muito peso da história ou se a mesma perderia a magia ao mudar de mídia.

O bom disso é que o resultado foi em grande parte satisfatório, gostei tanto que pretendo usar o filme e os quadrinhos pra mais uma sequência de posts aqui no blog. Começo de onde terminei a sequência anterior. O tema suicídio e morte ainda vai pairar por aqui um tempo. Talvez por ser um tema que me chame bastante a atenção, talvez pela insuspeita falta de criatividade que surge em alguns momentos na criatividade de qualquer pessoa.

Para começar, escolhi uma das músicas da trilha sonora, a música que toca durante o enterro do Comediante Sound of Silence de Simon & Garfunkel (clique aqui para ver um clipe da música). Aqui já surge algo divertido, durante o filme, a versão que toca é a original da dupla dos anos 60/70, mas no Youtube você vê e ouve a versão de uma banda de Death Metal chamada Atrocity (clique para ver essa versão) com várias cenas do filme. Vale ouvir as duas e comparar, gostei das duas.

Apesar de ter citado a morte do Comediante, não é ele que começa essa série. Prefiro primeiro dar uma geral sobre como enxergo essa história. Situando o povo, numa realidade alternativa onde os EUA venceram a Guerra do Vietnã e Nixon não passou pelo Watergate, tendo se mantido popular como presidente até 1985 pelo menos, ano em que a maior parte da história se passa.

Existe um cenário bastante apocalíptico, com a Guerra Fria chegando ao limite máximo e o medo rondando a população. Nesse mundo, os heróis são seres comuns, sem super poderes, inicialmente policiais mascarados que faziam uso desse artefato para caçar os bandidos que se mascaravam para não serem reconhecidos. Depois surgiu uma nova geração de heróis que aparentemente se divertia com isso. Porém, a população pediu o fim desses heróis e o presidente assinou um decreto onde todos foram proibidos de agir.

Três deles mantiveram suas atividades. O Comediante, que trabalhava para o governo, o Dr. Manhattan, único com super poderes e no caso dele poderes praticamente divinos, também trabalhando para o governo e Rorschach que se manteve o tempo todo no submundo.

Viver nesse sistema é complicado. Todos os personagens parecem oprimidos. Todo mundo parece a beira da loucura, a população parece precisar ser protegida dela mesma. É como se todo mundo estivesse esperando a morte chegar de alguma forma e procurando levar as sensações sempre ao extremo e sempre da pior forma possível. Essa loucura e medo fazem você esperar uma morte a todo instante. A mensagem mais clara de toda a história é a de que não existe esperança. Justamente o que a meu ver é o suficiente para fazer com que alguém se mate. Por outro lado, essa sociedade doente não é muito diferente da que vivemos hoje, talvez a grande diferença seja a possibilidade de sonhos que ainda nos mantém vivos. Quando os sonhos deixam de existir, o peso da realidade cai nos ombros e o som do silêncio nos leva a perceber que a morte pode sim ser um caminho razoável.

The Sound of Silence – Simon & Garfunkel

Quando o som do silêncio nos traz medo e desespero é sinal de que o limite está chegando

Hora de buscar outras fontes pra escrever. Infelizmente acabou a sequência em cima do Uma Longa Queda do Nick Hornby. Agora as ideias estão fluindo a partir de uma história em quadrinhos que virou filme. Eu adoro quadrinhos, acho uma linguagem super divertida. E como gosto de ver filmes, quando juntam as duas linguagens geralmente procuro saber qual foi o resultado final.

Só consegui assistir Watchmen hoje, e isso porque o final já saiu em DVD a um certo tempo (quase um mês). Eu adorei a história criada por Alan Moore, junto com Sandman e talvez Hellblazer é o que eu já li de mais interessante no universo dos quadrinhos. Confesso que fiquei com medo do filme. Fiquei imaginando se iriam dar uma pasteurizada nos personagens, tirar muito peso da história ou se a mesma perderia a magia ao mudar de mídia.

O bom disso é que o resultado foi em grande parte satisfatório, gostei tanto que pretendo usar o filme e os quadrinhos pra mais uma sequência de posts aqui no blog. Começo de onde terminei a sequência anterior. O tema suicídio e morte ainda vai pairar por aqui um tempo. Talvez por ser um tema que me chame bastante a atenção, talvez pela insuspeita falta de criatividade que surge em alguns momentos na criatividade de qualquer pessoa.

Para começar, escolhi uma das músicas da trilha sonora, a música que toca durante o enterro do Comediante Sound of Silence de Simon & Garfunkel (clique aqui para ver um clipe da música). Aqui já surge algo divertido, durante o filme, a versão que toca é a original da dupla dos anos 60/70, mas no Youtube você vê e ouve a versão de uma banda de Death Metal chamada Atrocity (clique para ver essa versão) com várias cenas do filme. Vale ouvir as duas e comparar, gostei das duas.

Apesar de ter citado a morte do Comediante, não é ele que começa essa série. Prefiro primeiro dar uma geral sobre como enxergo essa história. Situando o povo, numa realidade alternativa onde os EUA venceram a Guerra do Vietnã e Nixon não passou pelo Watergate, tendo se mantido popular como presidente até 1985 pelo menos, ano em que a maior parte da história se passa.

Existe um cenário bastante apocalíptico, com a Guerra Fria chegando ao limite máximo e o medo rondando a população. Nesse mundo, os heróis são seres comuns, sem super poderes, inicialmente policiais mascarados que faziam uso desse artefato para caçar os bandidos que se mascaravam para não serem reconhecidos. Depois surgiu uma nova geração de heróis que aparentemente se divertia com isso. Porém, a população pediu o fim desses heróis e o presidente assinou um decreto onde todos foram proibidos de agir.

Três deles mantiveram suas atividades. O Comediante, que trabalhava para o governo, o Dr. Manhattan, único com super poderes e no caso dele poderes praticamente divinos, também trabalhando para o governo e Rorschach que se manteve o tempo todo no submundo.

Viver nesse sistema é complicado. Todos os personagens parecem oprimidos. Todo mundo parece a beira da loucura, a população parece precisar ser protegida dela mesma. É como se todo mundo estivesse esperando a morte chegar de alguma forma e procurando levar as sensações sempre ao extremo e sempre da pior forma possível. Essa loucura e medo fazem você esperar uma morte a todo instante. A mensagem mais clara de toda a história é a de que não existe esperança. Justamente o que a meu ver é o suficiente para fazer com que alguém se mate. Por outro lado, essa sociedade doente não é muito diferente da que vivemos hoje, talvez a grande diferença seja a possibilidade de sonhos que ainda nos mantém vivos. Quando os sonhos deixam de existir, o peso da realidade cai nos ombros e o som do silêncio nos leva a perceber que a morte pode sim ser um caminho razoável.

Buena – Morphine

A capa do meu livro talvez seja a maior expressão dos meus fantasmas exteriores, ao menos ao meu alcance

Chegou a vez da Jess, talvez a personagem mais engraçada da história toda. Uma típica adolescente dos filmes americanos que mostram jovens desajustados. Relacionamentos tortuosos, drogas, sexo, falta de sentido na vida e alguma busca por algum prazer irreal. Esse seria um bom resumo da Jess, faltando, é claro, citar que ela é filha do ministro da educação britânico, ou seja, chama, mesmo que não queira, os holofotes para si.

Menina que cresceu com vários demônios internos após o sumiço da sua irmã mais velha. Jess encontrou no desajuste uma forma mais fácil de se fazer percebida por seus pais e em menor escala por ela mesma como parte do mundo. Ao som de Buena (clique para ver o clipe), som do Morphine como a música escolhida para o post do Martin, consigo visualizar Jess caminhando por ai com seu demônio interior e o apresentando a todo mundo que ela conhece com a maior serenidade que um ato como esse pode ter.

Não vou falar dos desajustes da garota, nem vale a pena. Acho que o melhor agora é elocubrar sobre o que a levou a subir ao edifício, e ai nem falo dos fatos, mas das sensações envolvidas no processo todo. Os demônios interiores que cada um de nós vivemos carregando por toda a nossa vida.

Jess tem o fantasma de sua irmã pairando sobre ela e sua família. Nunca digeriu o sumiço de alguém que de certa forma dava equilíbrio a sua vida familiar. Dissecando a maluca inglesa eu fico pensando nos meus demônios, nas perdas que tive, não aquelas pequenas perdas diárias que temos todos os dias e no fundo nem deveriam contar como algo que altere o nosso humor, mas sim as grandes perdas. Aquelas que nos marcam profundamente, gerando cicatrizes bastante aparentes, ou, em casos mais graves, feridas que nunca se fecham.

Essas feridas profundas fazem com que a gente não consiga mais raciocinar direito, e de certa forma fazem com que o nosso comportamento todo mude em função das perdas. Esses demônios internos demoram a ser exorcizados. Infelizmente alguns deles persistem por toda a vida. Imagine o que é para um pai viver com a lembrança da morte de uma filha num acidente doméstico que ele poderia ter evitado? Ou uma criança que nunca brincadeira banal acaba causando feridas graves a um amigo? Difícil viver com essa carga. É claro que esses são casos extremos de culpa, mas servem para exemplificar bem o que eu penso.

Entretanto, vejo meus demônios de um jeito diferente. Seria uma enorme mentira minha sair por ai falando que adoro a vida e tudo mais. Tenho demônios demais pra isso. Só que, eu não quero de maneira alguma me tornar um demônio na vida de outras pessoas. Provavelmente é isso que me mantém vivo. A total falta de sanidade e o medo de fazer com que outras pessoas sintam as mesmas sensações tristes e pesadas que eu sinto são o combustível mais real e funcional que eu tenho pra não passar do suicídio teórico ao prático.

A culpa que as pessoas erroneamente carregariam pelos meus atos poderia gerar uma grande reação em cadeia. Por mais que se diga que a culpa nunca é de quem ficou, mas sim de quem partiu, dificilmente as pessoas conseguem se isolar dessa sensação. Nesse sentido, o suicídio acaba sendo algo extremamente irresponsável. Não vou me alongar muito nesse tema, porque quero voltar a falar disso depois do post do JJ que será o próximo, mas ainda quero falar bastante disso até o final desse ano.

Cotidiano – Chico Buarque

entender e ajudar a minimizar a dor do outro deveria ser algo extremamente simples e comum, pena que não é...

Como eu havia prometido, começo agora a dissecar um pouco os personagens do livro “Uma Longa Queda” de Nick Hornby. Repito que adorei o livro e recomendo a leitura, me fez pensar num monte de coisas diferentes. Me fez entender e talvez me ajude a elaborar algumas de minhas neuras e o que é melhor, fez isso me divertindo. Fazendo meu cérebro trabalhar.

Aliás, falando nesse tema, fazer o cérebro trabalhar, escolhi pra começar a personagem aparentemente mais frágil do grupo dos suicidas. Maureen, mãe solteira de uma criança portadora de deficiência, o livro não deixa claro qual, mas sabe-se que seu filho não interage com o mundo ao seu redor. A dor que ela sente me remete até certo modo a uma música do Chico Buarque, Cotidiano (clique no nome da música para assistir a um vídeo dele cantando a música).

Apesar de a música falar da mulher sentir certa alegria em todo dia repetir as ações com e para o seu homem (sem discussões sobre machismo, ok? O assunto é outro), nem todo mundo se sente bem com essa falta de mudanças e perspectivas. Maureen se sente mal com o que vive. Não aguenta mais dedicar todo o seu tempo aos cuidados de Matt, seu filho. Não aguenta mais perceber que não vive mais sua vida, não faz nada e nem vê a possibilidade de voltar a fazer. Quantas vezes não nos sentimos presos dessa forma? Quantas vezes parecemos escravos do cotidiano fechado que nos cerca.

Acordar cedo, correr para o trabalho, ao fim do dia correr para a faculdade, chegar em casa cansado e adormecer para repetir tudo no dia seguinte, chega-se ao final de semana e é hora de limpar e arrumar a casa, ir ao mercado, fazer o que ficou pra trás durante a semana. Tudo é feito quase mecanicamente. Bem vindo a vida moderna diriam alguns, mas será que isso tudo é necessário? Conheço um número relativamente grande de pessoas que se sente oprimida o suficiente para se queixar de sua agenda e alguns até poderiam mesmo se matar pela forma como são oprimidos diariamente pelas obrigações. Falta tempo para conseguir ser quem realmente se é.

Até poderia dizer algo sobre falta um culto ao ócio ou algo do gênero, mas não é isso, muitas vezes a falta de atividade pode ser tão dolorosa quanto o excesso de atividade. O desemprego causa suicídios, causa desgosto e muitas vezes sair de uma situação dessas é muito mais difícil do que se pensa.

Nesse ponto Maureen acaba atuando como a voz mais forte de uma multidão insatisfeita com a própria vida. Alguns podem simplesmente dizer, mude sua vida e siga adiante, pare de encher a paciência. A questão é que muitas vezes não se sabe como fazer isso, ou não é possível mudar. Maureen mudou de alguma forma, não conto como foi para que você não desista de ler o (ótimo) livro.

Eu tentei me colocar no lugar dela. Confesso que parte da dor dela acaba sendo minha também, mas em outra instância. Algumas coisas eu poderia e deveria fazer de modo diferente, outras acredito mesmo ser esta maneira repetitiva a melhor possível e até a maneira necessária. Por outro lado, a ignorância (aqui no sentido de ignorar, desconhecer) de Maureen para alguns temas óbvios, me deixou extremamente pensativo.

Fiquei um tempão pensando nisso. O tamanho do mundo de uma pessoa varia de acordo com o que ela vive. Seus sonhos e desejos provavelmente vão ser limitados pelo tamanho de seu mundo. Como o mundo de Maureen era extremamente pequeno se comparado aos outros suicidas, seus desejos mais fortes pareciam bobeira aos olhos dos demais, só que para ela eram algo extremamente importante e forte.

Tentando chegar um pouco mais fundo nessa linha, como cada pessoa conhece e vive coisas diferentes, cada um possui um mundo diferente do outro. Os desejos de um, nesse caso, podem parecer extremamente ridículos e simples para o outro e vice-versa. Ai meu lado mais humanista e Pollyana (sim eu li Pollyana e Pollyana moça, mas não espalhem, por favor) me diz que o correto seria um ajudar o outro a chegar aos seus sonhos e resolver seus problemas, é bem mais fácil resolver a dor do outro do que a sua. O que pega é que infelizmente não é dessa forma que agimos, assim, diariamente mais e mais Maureens se suicidam, eu posso falar por mim, já pensei nisso algumas vezes e por motivos que a grande maioria das pessoas acharia banal.