Smells Like Then Spirit – Nirvana

 

 

Domingo é dia de blogar. Quase perco o dia. Culpa da TV, estou agora vendo os jogos da NFL. O tempo as vezes passa rápido demais e a gente nem se dá conta disso. Ontem mesmo foi um dia assim. Fui aliás duplamente enganado pelo tempo. Uma reunião divertida com colegas da faculdade regada à pizza, risadas e lembranças.

O tempo pareceu nem ter sido acelerado. Enquanto nos divertíamos a sensação era de que tudo acontecia depressa demais. Tanto que mal percebemos o adiantado da hora e a dificuldade em sair do shopping devido a falta de organização do estacionamento. Mas nem é desse tempo que eu quero falar.

Já escrevi diversas vezes sobre a relação que eu tenho de amor e ódio com o tempo. Ontem as conversas me fizeram ter a sensação de que de alguma forma eu envelheci. Todo mundo envelhece, até ai nada demais. Nem é uma sensação ruim. Apenas me vi perdido no meio de toda uma revolução tecnológica e social e nem me dei conta da forma como as coisas mudaram em tão pouco tempo.

Na época em que conheci o pessoal com quem estive na pizzaria ontem eu era um moleque, nem 18 anos tinha ainda. Era tempo de música grunge. Smell Like Teen Spirit tocava em todas as rádios e se via pelas ruas vários jovens com camisas de flanela abertas em cima de uma camiseta de qualquer cor.

O cd engatinhava ainda. Era mais difícil escutar música, eu mesmo tinha a minha coleção de discos de vinil (vários deles ainda existem na casa dos meus pais). Comprados juntando grana sabe-se lá de onde. Meu primeiro cd, aliás, ganhei no amigo secreto realizado ao final do primeiro ano dessa turma na facu. Um vale cd que virou uma coletânea do Yes. Coletâneas eram moda entre os primeiros CDs comprados. Afinal eles eram caros demais e nem todo mundo tinha aparelho para tocá-los.

Conhecer novos sons também era algo estranho e difícil. A variedade das rádios era menor do que hoje, tinha só uma rádio que tocava rock, a 89. Era trocar fitas com colegas que trocavam com outros colegas até que aquela banda estranha chegava aos seus ouvidos e você gostava. Ai ir atrás dos discos era um capítulo a parte. Geralmente íamos para a Galeria do Rock, no centro de São Paulo. Único lugar onde era possível encontrar alguns sons.

Nessa turma só um amigo tinha gosto musical similar ao meu. Cada um era de um canto da cidade, com uma história. Naquele tempo as pessoas de bairros diferentes não tinham tanto contato assim. A internet nem era algo popular. Na verdade era algo restrito as universidades. Nós mesmo só fomos ter acesso a internet no segundo ano da faculdade. Quando inauguraram a sala Pró-Aluno lá na Biologia.

Naquela época era internet discada em casa. Sempre usada depois da meia-noite para que a conta não ficasse tão alta. A velocidade absurdamente baixa. Aliás, abaixar ou ouvir uma música pela internet era algo impensado. Raramente era possível baixar os e-mails.

Nesse meio tempo todo, a internet se tornou popular (hoje até em celular temos internet). O CD nasceu e já praticamente morreu, as fitas de VHS foram substituídas por DVDs que hoje já começam a ser substituídos por Blu-Rays. Consigo conhecer sons de todo o mundo apenas fazendo uma busca pelo computador. Não existe mais a luta pelos lançamentos importados. Tudo está na rede. Conseguimos comprar só as músicas que quisermos ou em muitos casos isso nem é necessário, basta ter conexão a internet e ouvir tudo em sites como o Youtube.

O tempo passou, quase tudo realmente mudou, mudou a moeda, um presidente foi deposto, outros eleitos. Nós crescemos e vimos o mundo mudar e não percebemos. De certa forma até fizemos parte dessas mudanças. Pelo menos eu espero ter contribuído de alguma forma. Mas e nós? O que aconteceu conosco? Tirando os quilos a mais, os cabelos a menos, os olhos mais cansados e alguns cabelos brancos, tudo ficou igual. Por mais que o mundo tenha se movimentado. A alegria de ver todos é sempre a mesma. Ainda damos risadas das mesmas piadas sem graça de 18 anos atrás.

Perceber que o tempo passou, inclusive pra gente, mas que nem tudo mudou é o que nos deixa mais calmo com o envelhecer. A gente sabe que o tempo passa e as vezes machuca, mas também sabe que ele preserva algumas coisas que são essenciais para que a gente suporte tudo. Como a diversão de sentar com os amigos e rir de coisas que já ri mil vezes.

Tarde Vazia – Ira e Samuel Rosa

 

Nesses dias de correria eu penso em coisas que queria viver. Penso que se tivesse tempo talvez pudesse sentir coisas que me fazem falta. Mas também penso em como muitas vezes não aproveito meu parco tempo livre.

Tempo, o velho inimigo de sempre. Aquele que me desafia a todo instante e me pede pressa muitas vezes, noutras simplesmente teima em não passar. Age como se cada segundo fosse eterno e eu não estivesse congelado nesse sistema.

Eu vivo assim nessa briga eterna com Cronos, buscando entender da melhor forma os devaneios dessa coisa que me prende entre segundos, me sufoca enquanto me apressa e me entedia enquanto demora para passar. Sei que tem gente que lida muito bem com isso. Sabe organizar seu tempo de forma a curti-lo em sua essência. Tem gente que sabe aproveitar cada segundo e dele faz festa e alegria para si. Infelizmente não é o meu caso.

Nem é o fato de eu ser desorganizado. Posso até confirmar isso, mas sou bem menos do que parece. Nem posso culpar o fato de fazer muita coisa. Isso realmente acontece, mas nem sempre é essa a verdade. Caso fosse esse o problema, eu nunca reclamaria quando o tempo parece caminhar mais lentamente que o habitual, eu simplesmente aproveitaria esse “alongamento dos segundos” em algo mais útil e quem sabe prazeroso.

É simplesmente falta de jeito e muitas vezes desencontro de agendas. Nesse último fim de semana, por exemplo, até tentei entregar um presente que está comigo a meses, para alguém que vinha de outra cidade até a minha. Mas sempre que olhava no relógio, percebia que o dia havia se esvaído entre meus dedos ainda faltava coisa demais para ser feita. Só me resta pedir desculpas e esperar uma próxima chance.

As coisas que não dependem só de você para organizar o tempo também incomodam. Muitas vezes você até se programa e segue seu cronograma, mas infelizmente, algo muda com o passar do tempo e te impede de fazer tudo o que planejou. Aliás, isso é algo bem comum. Muito mais comum do que parece. Só que são fatos que nem valem a pena reclamar. Não temos controle algum sobre isso. É aquela fila no exame que demora muito mais do que o previsto, é o acidente que piora o trânsito, ou até o caminho inteiramente livre que faz com que você chegue duas horas mais cedo no local combinado e fique sem ter o que fazer por um bom tempo.

Eu não falaria sobre isso hoje, acho que nem escreveria nada, confesso. Mas voltando pra casa, assim que liguei o rádio, ainda no estacionamento da escola. Começo a ouvir os primeiros acordes da música que dá nome ao post. E fiquei uns minutos viajando nos versos do Edgar Scandurra. Imaginando uma tarde como essa. Aparentemente livre e sem peso. Sem a culpa por não ter feito algo ou o excesso de tédio. Apenas uma tarde vazia, preenchida basicamente por um telefonema especial.

Fiquei pensando em quantas vezes sentimos a sensação de vazio e tédio. E mais ainda, em quantas vezes esse tédio poderia ser suprido por coisas simples, como um telefonema, um passeio, um café ou mesmo relaxar ouvindo uma música que fazia tempo não estava em seu playlist. Quantas vezes esquecemos de valorizar essas pequenas coisas. Atos que poderiam tornar o passar das horas menos pesaroso, mesmo quando as horas passam mais rápido do que deveriam.

Mesmo com a total falta de tempo, eu vim aqui escrever. Escrevi rápido porque o texto foi todo sendo construído enquanto em dirigia para casa. Aproveitei as curvas da rodovia, o som no rádio e a vontade de falar algo para juntar tudo nas idéias que compõem esse texto. Pode não ser o mais belo, pode não ser o mais profundo, pode nem mesmo ser minimamente poético ou aceitável. Mas ele fala algo que eu preciso ouvir e isso já lhe dá um valor difícil de calcular.

Afinal, me fez desejar de modo intenso duas coisas. A primeira é aprender a curtir melhor meus momentos de pressa , que são constantes, mas se aproveitados de maneira mais eficiente podem render mais e ainda assim serem mais divertidos. Basta eu aprender a relaxar mesmo nessa correria. Já tive fases da minha vida em que fazia isso com certa facilidade, por que não hoje? Por que não voltar a fazer isso todos os dias?

A segunda é o desejar ter um dia desses de tarde vazia, onde algo simples e singelo faça valer o dia. Curtir um pequeno ócio quando ele for possível. Aproveitar pequenas folgas sem sentir culpa e pesar por isso. Aprender a ter boa companhia do lado, apenas pela companhia. Aproveitar um telefonema, uma conversa que não precisa ser formal, que poderia e deveria ser alegre. Quem sabe assim eu me torne alguém mais agradável do ponto de vista social.

Alguma música já lhe trouxe algum insight desse tipo? Que tal falar disso aqui? Conte sua história e a música. Diga o que ela lhe trouxe de bom.

Singing in the Rain – Jamie Cullum

 

Depois de muito tempo hoje chove. Sinto até um aroma diferente no ar. Sentia falta da chuva, fica muito mais fácil respirar. Claro que eu não planejei sair de casa hoje, por isso a chuva não me atrapalha. Num fim de semana também o trânsito é menor, a pressa é menor, assim a chuva pode até ser curtida.

Escrevo isso depois de uma semana corrida, pouco tempo para dormir, menos tempo ainda para pensar e até passar por aqui. Falta tempo para tudo. Talvez por ter sobrado um pouco de tempo é que consigo hoje curtir a chuva. Ouvir ela bater no vidro da janela e tentar observar os desenhos que ela faz enquanto escorre pelo vidro, se torna uma brincadeira bastante divertida.

Coisas que antes eram bem normais de se fazer, deixar o tempo passar e não se sentir culpado por isso. Curtir o ócio e fazer dele a base para mais um período produtivo. Hoje isso não acontece mais, é só o tempo. Ele nos domina e muitas vezes nos vence. Ele nos regula e frustra, mostra como somos imperfeitos a todo instante que perdemos preciosos segundos relaxando, pensando em nosso próprio bem.

Hoje parece que tudo tem que ser feito as pressas. O  tempo sempre nos cobra algo como se ele fosse a única divindade a ser cultuada. Eu que sou ateu, tenho me visto cada vez mais cultuando o tempo. Adepto que sou da tecnologia, cada vez mais faço uso dela pra diminuir o tempo gasto em cada atividade. E o que faço com o tempo que me sobra? Arrumo mais coisas para fazer. Tudo em honra ao tempo e nunca para o homem que em teoria deveria usufruir de sua própria vida.

O grande problema dessa grande soma de atividades e busca constante pela maior produtividade está na mecanização dos atos. Falta curtir cada momento. Falta poder escrever um post como esse e poder refletir sobre o que me levou a escrevê-lo. Falta ter paciência para cozinhar um jantar mais elaborado para mim mesmo. Falta curtir uma música do começo ao fim enquanto faço nada.

Hoje foi a chuva que me fez perceber isso. Com ela a luz acabou, e eu fiquei um tempo ouvindo seu som batendo na janela e vendo os desenhos formados (eu sei já falei isso aqui no texto, mas vale a pena retomar, não será tempo perdido). Depois fui rascunhar uns textos por diversão, sem pressa e finalmente resolvi vir aqui fazer o texto do blog, isso assim que a luz voltou. Mas tudo isso sem pressa. Tudo isso no meu tempo. Dessa vez quem comanda o tempo sou eu e não o contrário como geralmente ocorre.

Nessa tarde divagando, pude pensar em como tenho aproveitado pouco meus momentos. E o pior é perceber que muitas das pessoas que convivem comigo sofrem do mesmo mal. Almoços corridos, horas no trânsito, pouco tempo em casa com a família, poucas horas de sono. E de quem é a culpa disso? Nossa, a gente que se embrenha cada vez mais no produzir e fazer. Acabamos por vezes esquendo o ser. Acabamos reduzidos somente a nossas ações porque sobra pouco espaço para nossos pensamentos e para a nossa essência.

Por isso agradeço a chuva de hoje, ela me deu tempo pra pensar em mim. Fui buscar também uma música bem antiga. Singing in the Rain, canção do filme homônimo de 1952. Época onde se tinha muito mais tempo. Hoje não consigo imaginar alguém dançando como Gene Kelly, brincando e dançando entre as poças. Já não temos tempo para “perder”com isso. E justamente para me lembrar disso é que coloquei a versão de Jamie Cullum, mais moderna e apressada, interessante, mas sem a graça e a leveza presentes na dança do antigo filme.

Você também se sente brigando com o tempo? Se sente sufocado? Pare um pouco, respire e se dê o direito de agir como Gene Kelly, totalmente despreocupado e senhor do próprio tempo.

Passaredo – Chico Buarque

Essa estação viu parte daquilo que quero retomar

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=EgJ7JER7ZCM&w=640&h=390]

Existem dias mornos, dias ruins, dias bons. Ontem eu tive um dia quase perfeito. Uma espécie de volta no tempo. Um retorno a dias felizes com coisas simples. Talvez apenas a percepção de que o tempo passou, muita coisa mudou, mas também muita coisa permaneceu exatamente como sempre foi, isso é bom. Sinais de maturidade junto com sinais de que nem toda a alegria juvenil se foi, aliás, muito pelo contrário.

Menos do que os fatos, no caso de ontem importam muito mais as sensações. Menos do que as ações, as reações ontem é que foram importantes. Como aliás deveriam ser sempre. Claro que os nossos atos são importantes, mas mais do que isso, o que nos leva a agir de determinada forma. Vale o mesmo pras reações, nós fazemos as coisas também porque a forma como cada pessoa reage ao que fazemos importa para a gente.

Isso resume meu sábado. Coisas triviais ganharam peso pelo que trouxeram consigo. Tem um filme até antigo que retrata bem o que senti ontem. Já citei ele no blog antes. Comédia romântica bobinha mas divertida.  Feitiço do Tempo de 1993 com o Bill Murray e a Andie MacDowell. Na história um homem é obrigado a viver o mesmo dia eternamente até que conquiste verdadeiramente o amor da mulher que lhe chama a atenção.

Aqui não falo da conquista, mas sim do viver eternamente o mesmo dia. Justamente foi a sensação que eu tive ontem. Acho que todo mundo tem seus deja vus, infelizmente a maioria das situações em que isso ocorre são momentâneas e sem uma real ligação com um fato passado. Algo bem diferente do que eu vivi ontem.

Vivi fatos que eu consigo relembrar exatamente dia, hora e circunstâncias em que eu vivi esses mesmos fatos no passado. Justamente por isso é que foi um dia tão bom. Foi bom perceber que algumas coisas podem retornar e que eu sou capaz de fazer essas coisas. O melhor foi olhar para esses fatos com muito mais maturidade e também com muito mais confiança. Hoje posso dizer sem medo que não repetiria erros do passado e que principalmente sei como alterar algumas coisas que não consegui alterar no passado.

Por isso a música escolhida para o post. Além do composititor (Chico Buarque), o tema também remete ao passado. A um tempo em que eu reconhecia as aves pelo canto e que aprendia a viver coisas novas. Aprendia a entender coisas novas.

Hoje que esse período todo de aprendizagem faz parte do passado, as sensações são muito mais saborosas. Coisas simples como fazer comprar, carregar coisas, andar pelo mercado relembrando fatos distantes tornam tudo muito mais saboroso. Ainda mais por perceber que não sou mais o menino que já fui. Posso ser jovem, ou jovial, mas deixei de ser menino.

Tem um verso da música que até parece bem com o que eu sinto nessa história toda “O homem vem ai” Mesmo tendo um sentido diferente do dá música, é saboroso poder dizer isso com todas as letras, EU HOJE SOU ADULTO!!! Adulto a ponto de até admitir reviver não só um momento bom, mas de reviver todo o passado, só que com outro olhar, agora com maturidade e não mais com a ideia do eu preciso e sim pensando que eu quero reviver o passado porque eu posso fazer isso de maneira saudável e feliz. Eu posso retornar sem medo de viver.

Me resta agora apenas reconquistar totalmente esse passado, algo que posso falar que tentarei porque é justamente o que agora EU QUERO!!!

Time – Pink Floyd

Quase perdi a hora certa de dar flores a quem merece…”

Eu e o tempo, dois eternos inimigos, na verdade eu diria que eu sou o inimigo dele que não está nem ai pra mim. A música Time do Pink Floyd traz uma letra que traduz de forma bastante interessante o que eu quero falar sobre o tempo. Hoje quero brincar com algumas alegorias malucas em minha cabeça, idéias que surgiram de pequenas histórias que quero contar.

Primeiro devo deixar claro que quero novamente falar do tal instante decisivo em nossas vidas. Tudo tem um momento exato e eu como sempre sei que não tenho tato suficiente para perceber esses momentos e muito menos sei como agir na grande maioria deles. Provavelmente eu vá ouvir que grande parte da população mundial também se sente assim em relação ao que acontece em suas vidas. Confesso que não duvido disso, apenas uso isso como forma de garantir uma maneira agradável de expressar o que eu penso.

A primeira alegoria divertida vai para um fato ocorrido hoje (ontem afinal já é meia noite). Eu sou um cara que sempre adorou enviar flores, gosto mesmo da sensação que isso causa em algumas pessoas e também encaro como uma forma de dizer o quanto o carinho e a delicadeza dessas pessoas me encantam, a ponto de me sentir tentado a deixar um ser belo (quase tão quanto quem recebe as flores) e carinhosamente frágil aos cuidados de alguém. É algo que só faço com quem acho especial.

Mas voltando a história. Hoje voltei a fazer isso. Da maneira mais estapafúrdia e ridícula que se pode fazer isso, mas fiz. Tinha suas flores plantadas, tinha alguém para quem eu queria dar as flores e, de alguma forma consegui fazer isso. Atribuo o consegui mais ao tempo certo, o instante decisivo do que a forma como fiz. Se dependesse da forma como fiz as flores estariam mortas. Aliás, espero que a pessoa que as recebeu entenda que foi um gesto de carinho e não um livrar-se de algo. Coisa de homem tímido.

Esse foi um instante decisivo bom. Divertido até certo ponto, confesso que adormeci com um sorriso no rosto em meu almoço por ter feito isso. Afinal, quem levou as flores gostou, e elas sobreviveram sob os cuidados de alguém que eu acho especial. Tudo no tempo certo. Tempo certo que também se torna o cerne de uma segunda alegoria maluca. Terminei a leitura de um livro que mexeu bastante comigo. Mexeu a ponto de eu querer falar muito dele, algo que começarei hoje, porque tem tudo a ver com essa minha relação com o tempo. Tanto pelo fato de ter pego o livro no momento certo (acho que se tivesse lido anos antes não teria chegado a algumas conclusões e se deixasse para ler daqui a alguns anos, talvez nunca tivesse a chance de ler).

Para quem não leu, eu recomendo fortemente o livro Uma Longa Queda de Nick Hornby. A história dos quatro quase suicidas que se encontram no momento fatal na noite do ano novo realmente me comoveu e me fez pensar. Não estou aqui nem cogitando a hipótese de acreditar em forças divinas, deuses e anjos que possam vir salvar almas perdidas perto de se entregar ao medo. Não estou aqui também pra falar da luta pela vida. Apenas a idéia do tempo decisivo me interessa nesse instante. Próximos posts sobre cada um dos personagens principais virão a seguir.

O que vale ressaltar, e com grande importância pra mim. É que se todos não tivessem chegado no instante em que chegaram, a história (deliciosa de se ler, por sinal), não teria ocorrido, os 4 teriam se jogado e mesmo sem a real vontade de se matar, teríamos 4 corpos a mais no necrotério de Londres, nada que realmente fosse fazer diferença.

A verdadeira diferença surgiu do acaso e da sorte. Do aproveitamento do instante decisivo em que as decisões foram tomadas. Cada um podia decidir o que fazer e as decisões de um influenciaram os outros. Ai surge outro conceito temporal maluco. A reação em cadeia. Se um dos quatro tivesse se jogado, com certeza a história seria muito diferente. Cada um influenciou os outros e foi influenciado. Cada ação gerou diversas outras que no caso da trama, acabaram servindo de desculpa forte o suficiente para se evitar a morte. Não sei se funcionariam com um cara como eu, mas com certeza me fizeram pensar.

Aliás, o que faria você dar um passo atrás numa decisão forte como essa? Suicídio será um tema posterior, mas vale a pena já começar a coletar informações, o que faz você acreditar que vale a pena viver?

Sobre o Tempo – Pato Fu

Eu devia ter dito que ela estava realmente linda...

“Tempo, tempo, tempo mano velho” Este trecho da música do Pato Fu chamada Sobre o Tempo, é o resumo dessas minhas últimas semanas. Eu sempre briguei com o tempo, ele sempre foi meu inimigo máximo. Na maioria das vezes ele passa devagar demais, ou pelo menos da forma errada no tempo errado. Coisas que deveriam durar uma eternidade acabam durando segundos.

O tempo nessa semana voou enquanto eu tentava dormir, demorou a passar quando eu tive coisas chatas e situações complicadas, se evaporou quando eu precisava terminar algo em pouco tempo e congelou quando eu precisei esperar o tempo necessário para fazer algumas coisas. Eu sei que isso acontece com todo mundo, todo mundo vez ou outra reclama das mesmas coisas que eu, só mudam as ações que levam a reclamação.

Na verdade, só me lembro de uma pessoa que conheci e que fazia questão de dizer que o tempo sempre passou na velocidade certa, a gente é que tem que se acostumar com ele. A frase extremamente sábia eu ouvi de um pescador que saia todos os dias pro mar com seu barco na Ilha Grande, encontrei-o duas vezes em visitas que fiz à ilha. Gente boníssima, saia pela praia distribuindo os peixes que pegava em excesso e sabia que iam estragar, nós que acampávamos por ali adorávamos esse acréscimo em nossa refeição. Aqui vale um bom adendo, finalmente comecei a ler O Velho e o Mar do Hemingway. Peguei emprestado e acho que vou curtir muito o livro.

Mas voltando ao tempo, a forma como ele atua em cada um de nós a cada instante é extremamente irritante. Ainda mais quando existe uma diferença clara de expectativas em relação ao que vai se passar naquele momento. É como dar aulas pra uma turma, você num ritmo alucinante, e os alunos achando tudo aquilo lento e maçante, não encaixa e não funciona pra nenhum dos lados.

Ontem, especificamente ontem eu briguei com o tempo. Reclamei dele de forma rabugenta. Vivi momentos em que eu queria que ele passasse mais devagar e momentos em que sonhava com a ampulheta extremamente veloz que foram separados por segundos, milissegundos. Até entendo que algumas limitações pessoais tornaram essas brigas mais fortes do que realmente deveriam ser, mas foi o que senti.

Primeiro o lado da pressa, fiquei feliz com meus alunos, o que eles produziram foi de qualidade, mas confesso que ficar o dia todo (principalmente durante a manhã) num lugar extremamente lotado me fez um mal tremendo. Não reclamo do trabalho, eu até curto, o que não curto é passar mal por besteiras como essa, quem sabe me livro disso em breve.

O lado oposto tem muito a ver com minha timidez. Eu uma vez pensei em escrever versos falando da minha relação com o tempo (na verdade eu vou fazer isso, apenas agora preciso estudar mais o assunto). Um dos pontos que mais me intriga é algo que eu costumo chamar de tempo exato. Algumas coisas possuem o momento exato para serem feitas e vividas. Se um segundo antes atrapalham tudo e nada funciona a contento, se um segundo depois perdem a força e podem soar até de forma ofensiva e jocosa.

Passei pela perda do momento exato ontem, senti isso de forma bem próxima. De início, vi alguém que merecia um elogio e fiquei com uma baita vergonha de fazê-lo, primeiro porque eu não queria dizer que a pessoa estava bonita ontem, mas sim que ontem ela estava mais bonita que de costume, apesar de ser já muito bonita. E queria fazer isso de forma leve, sem parecer cantada barata. Pensei, pensei, pensei e acabei nem fazendo isso, perdi o momento. E tive sim meus momentos pra isso. Aliás, em certo momento até estive a sós com a pessoa, mas por timidez o papo não fluiu, fiquei sem saber o que falar e nem consegui caminhar na direção desejada, como dito posts atrás, entender e conhecer melhor alguém que me gera curiosidade (quem é eu não cito o nome nem adianta perguntarem, talvez a pessoa até saiba que é ela, enfim tempo ao tempo…rs).

Aliás nesse momento, que eu queria até certo ponto que fosse mais longo (principalmente se eu tivesse aberto a boca como imaginado), pareceu extremamente imenso quando percebi que parecia ser inconveniente naquele momento. Ai as pessoas se afastam. E o tempo que eu queria que durasse muito, acabou parecendo longo demais.

É com essa dualidade que não sei lidar, com o jogo que envolve o outro, com a forma como a expectativa do outro altera a minha noção temporal, ainda mais quando não consigo fazer uma leitura clara da outra parte. Conheço gente que lê as pessoas como lêem um livro estilo Fogo no Céu ou o Rabo do Gato, livrinhos infantis com poucas frases, utilizados para alfabetização. Por outro lado, eu faço parte daqueles que encontram na leitura das pessoas a mesma facilidade que teria ao ler Ulysses do James Joyce numa versão em aramaico ou russo.

Quem sabe um dia eu aprenda. Quem sabe eu consiga também aprender a manusear de forma correta o tempo, e pare de perder estes instantes decisivos (justo eu que me considero um fotógrafo razoável perco instantes decisivos). Quem sabe eu aprenda que a ter o timing, faça o tempo realmente correr macio e ser um amigo legal pra mim, parando de reclamar.

E você? Reclama muito do tempo? Quais as suas grandes reclamações temporais? Aguardo seu comentário.