When I Sixty Four – The Beatles

 
http://youtu.be/VH9-UYX8RlQ
 

Muitas vezes ouvimos frases que marcam. Frases que aparentemente chegam aos nossos ouvidos sem motivo algum e ficam. Outras vezes essas frases marcam pelo número de vezes em que as ouvimos num determinado período. Parecem mantras que se tornam populares aos nossos ouvidos.

Ouvi de mulheres diferentes, em momentos diferentes e situações diferentes a reclamação das mesmas que o tempo passou e elas não possuem mais seus 20 anos. Dito de forma a parecer que a passagem do tempo é algo negativo. Como se o tempo fosse inimigo e os 20 anos marcassem uma data especial, uma espécie de ápice pessoal e tempo ideal para a realização de sonhos.

Interessante que pelo menos algumas das mulheres que reclamaram da passagem do tempo fazem parte do meu círculo de amizades a muito tempo. A grande maioria eu já conhecia antes mesmo delas completarem os tais 20 anos de idade. E posso garantir com quase 100% de certeza que as mesmas são pessoas muito mais interessantes hoje acima dos 30, em alguns casos perto ou acima de 40 anos do que eram nos seus 20 anos.

Geralmente o tempo faz bem a quem é inteligente. Por mais que se sofra e a vida seja dura, só o tempo é que pode trazer a maturidade necessária. Só o tempo ensina a gente a aproveitar melhor o que cada idade pode fornecer e por isso só o tempo pode ensinar formas de realçar belezas outrora escondidas ou descartadas.

Se um bebê é belo aos olhos de todos, uma criança é sempre vista como fofinha e simpática e o jovem tem na plenitude física e no fogo da inquietude os atributos que o tornam interessantes, só mesmo o adulto é que passará a ser visto pelas suas próprias características e por isso reconhecido por um tipo pessoal e próprio de beleza. Nesse caso a beleza não reside mais no grupo a que se pertence, mas sim ao indivíduo.

E é assim que eu vejo cada uma dessas mulheres que em momentos diferentes reclamaram dos 20 anos terem passado. Muito mais belas agora do que no passado. Afinal, hoje elas são muito mais plenas e reconhecíveis por suas características do que pela rigidez do corpo. As curvas podem ser outras, a pele pode trazer marcas e até o cabelo pode ter se modificado. Mas no caso delas tudo foi lindamente alterado pelo tempo. As experiências criaram a força expressa nas pequenas marcas no rosto. Os dissabores que cada uma passou podem ter se tornado gramas a mais ou a menos. Os banhos de chuva podem ter modificado o brilho dos cabelos. Mas tudo isso trouxe um novo brilho aos olhos, um andar mais altivo, um sorriso mais verdadeiro e uma confiança que não se encontra ainda em quem pouco viveu ainda no início da vida adulta.

Mesmo a mulher que amo, é muito mais bela aos meus olhos hoje do que a 15 anos atrás quando nos vimos pela primeira vez. Hoje ela se tornou muito mais encantadora e bela, se tornou mais completa, mais viva. Não que antes não fosse bela, ela era, sempre foi, mas hoje traz mais de si nessa beleza. Vai além do físico, chega a algo que se pode de alguma forma chamar de alma, uma beleza mais ampla.

E é essa a beleza ampla que me encanta, que me faz por vezes sonhar ouvir e viver a música dos Beatles que nomeia o texto. Chegar aos meus 64 anos ao seu lado. Aproveitando cada segundo e reinventando esse amor e carinho. Descobrindo novas facetas dessa beleza que se altera a cada dia.

Não falo só dela, falo de todas. Minha mãe é mais bela a cada dia, minha irmã também. Minha avó apresenta um tipo bem peculiar de beleza encantadora e isso acontece com todo mundo, mulheres e homens. Porque só o passar do tempo nos ensina a valorizar e a expressar a nossa verdadeira beleza, aquela que irradia de dentro pra fora e não o contrário.

In My Life – The Beatles

 

 

Nesses dias tenho percebido a lua sorrir para mim. Percebi isso principalmente no domingo a noite. Ao voltar para casa depois de um dia alegre e divertido. Um dia onde o mais óbvio dos endereços se fez distante e errático. Até hoje não acredito que não consegui um bom restaurante japonês no bairro da Liberdade.

Dessas coisas que no fundo ninguém entende, mas que parecem fazer todo o sentido do mundo. A cidade atravessada em minutos, e os minutos parecendo ser segundos de tão rápidos e frágeis. O tempo voo e o que era centro virou zona norte. Os sushis e sashimis como que por magia viraram picanha, arroz e salada. Muita picanha, muito arroz e muita salada. Não que a quantidade realmente  importasse, aliás, nem mesmo a qualidade do alimento era realmente importante. Apesar de saborosa, a comida era somente um pretexto. Um frágil pretexto para olhares e frases muito mais doces do que fora a saborosa sobremesa.

E no fundo foi assim que fez-se o dia. Frases soltas que se uniram num sentido que só quem pode ouvir realmente conseguiu compreender. E olhares. Muitos olhares. Olhares perdidos, olhares meninos. Olhares leves com o mais puro sentimento juvenil. As frases só fazem sentido se vistas, e os olhares só ganham força quando acompanhados da frase certa.

Nessas horas a gente percebe o quanto o tempo passa rápido demais.Nessas horas a gente aprende  a tentar reter tudo o que pode. Tudo o que puder ser lembrado depois merece ser guardado. Afinal, existem instantes que não voltam nunca mais. O primeiro olhar, o primeiro sorriso, o primeiro passo, o primeiro toque. O primeiro momento de mal estar por não saber nem como nem porque se está ali, mas justamente perceber que ali é na verdade o único lugar onde se realmente quer estar.

E assim se paga o preço. Vai-se para o segundo olhar, o segundo sorriso (esse talvez meio amarelo pelo medo), o segundo passo e o segundo toque. Um segundo passa as vezes tão depressa e noutras parece durar a eternidade. É preciso saber apreciar esse momento. Como todos os outros ele nunca mais vai se repetir. Só que de forma diferente. Ele não pode ver-se perdido por ai. Ele merece a eternidade, nem que seja em sonho, nem que seja em pensamento.

Nessas horas o pensamento vai tão longe. Vai distante que se perde entre o real e o imaginário. Tudo vira sonho. Todo sonho cresce de tal forma que muitas vezes nos faz perder o controle. O chão some mas a gente não cai. Flutuamos e saímos por ai meio sem rumo. Levados por desejos para lá de juvenis. Quem não gosta de viver isso de tempos em tempos?

Viver, no fundo essa é a palavra chave. Algo que agora faço porque já sei o preço. Algo que agora consigo porque sei o quanto custa. E vivo assim sem pressa, ou melhor com a pressa ávida de cada momento. Como se cada momento fosse único (e realmente é), como se cada momento fosse importante e me cobrasse bem mais do que nacos de energia e oxigênio. Porque a vida no fundo cobra muito mais do que isso.

E pagar esse valor tranquilo é o que me faz feliz. Saber que o preço pago vale e muito a pena. Porque se eu hibernei num longo inverno, agora acordo numa aconchegante primavera.

A Day In The Life – The Beatles

 

 

Comprei uns livros de presente. Sempre faço isso, me faz um bem danado. Acontece que acabei furando a fila. Escolhi um dos despretenciosos livros que comprei e comecei a ler na sexta. Duro foi largar antes do final e dormir, dolorosa está sendo a despedida de suas últimas páginas.

Já falei mil vezes por aqui que sou fã de carteirinha do Nick Hornby. Não que ele seja um mestre da literatura mundial. Até acredito que ele escreve quase sempre o mesmo livro, que seus personagens apresentam quase sempre as mesmas crises, só mudando o pano de fundo dos enredos e um ou outro ponto na história. Mesmo assim, fui atrás dos outros livros dele que não conhecia ainda. Comprei vários e furei minha fila com o delicioso Juliet, Nua e Crua.

Texto despretensioso. Não falarei muito aqui da história, mas sim de um aspecto no livro que me chamou muito a atenção e apresenta uma ligação direta com meus dois últimos textos. Ainda um período de dor e melancolia, ainda um período de tristeza, mas sempre um período de reflexão.

Eu disse no último texto que me preocupo com o tipo de exemplo que eu acabo passando, que me preocupo em passar as coisas certas, não as minhas esquisitices. Justamente depois de escrever isso eu abro um livro que fala o tempo todo de idolatria, tanto do ponto de vista do fã quanto do ponto de vista do ídolo. Aliás, algo que ocorre com todo mundo o tempo todo, se num momento você segue alguém, no segundo seguinte pode ser o modelo de outra pessoa.

É engraçado como a gente acaba julgando as pessoas de acordo com a nossa moral. Nossos ídolos não escapam disso. A gente muitas vezes tenta simplesmente encontrar motivos dentro daquele pequeno mundo mental que possuímos que possam explicar cada uma das ações dessas pessoas. O pior é que algumas vezes não encontramos as ações e as criamos a partir de uma lógica torpe que só a gente entende.

Preconceitos e imagens prontas povoam o universo. A gente nunca aceita as mudanças. Só nós podemos ter mais de uma opção. Todo o resto do mundo deve ficar parado de acordo com o nosso julgamento e as suas ações acabam sendo certas ou erradas mediadas apenas pelo nosso olhar. É estranho imaginar o quanto nós conseguimos ser mesquinhos sem se dar conta disso. O universo não gira ao redor do nosso umbigo. Somos pouco mais que pó e mesmo assim nos achamos quase sempre a última bolacha do pacote.

O livro não fala tanto assim dessa forma humana de ver o mundo. Na verdade essa foi apenas a leitura que eu fiz a partir da história principal. Entretanto, algo que está ali, com todas as letras e cores é o fato de que quase sempre esperamos do outro um motivo nobre ou pelo menos intrincado para cada ação que a nossos olhos parece estranha ou especial. Mesmo que nas nossas próprias vidas, na grande maioria das vezes, esses fatos acabam sendo meramente frutos do acaso ou de decisões extremamente simples.

Se a gente pedisse pra cada um descrever um dia especial, provavelmente esse dia seria extremamente simples. Talvez com um grande amor num dos momentos, com uma grande conquista, com a realização de algum sonho. Mas no fundo seria um dia comum. Você acorda, levanta, se arruma e segue adiante na vida.

Todo mundo faz isso todos os dias. Se tem gente que consegue fazer desse dia comum um dia especial, parabéns a essas pessoas. Elas provavelmente se prenderam a tudo aquilo que é mais simples. Se você como eu não consegue ter muitos desses dias. Talvez seja hora de perceber que não é a falta de momentos que causa isso, mas sim a falta de sensações associadas a esses momentos.

Aquela música que eu posso achar ter sido uma inspiração superior e algo especial para um cantor, na verdade pode ter sido apenas um monte de versos que o autor achou bobo, acordes que ele simplesmente juntou rapidamente e que na verdade faz mais sentido pra você do que pra ele. Porque ele pode apenas ter feito, ter criado, mas é você quem sente. Assim, não espere do outro a mesma emoção que você sente. Ele pode, como eu, ter mais dificuldades em perceber as coisas que são mais simples. Pode não conseguir valorar a beleza de um dia normal na vida.

Things We Said Today – Paul McCartney

 

 

Se algo tem se mostrado muito claro para mim nesses dias é que cada um deve sempre fazer as coisas do seu jeito. Que não existe um único jeito de se fazer uma coisa nem mesmo um único caminho a ser seguido para se chegar a algum lugar. Por mais que a gente diga que existem fórmulas corretas em determinados assuntos. Por mais que a gente muitas vezes queira dizer que existe um jeito certo e único para determinadas coisas, sempre aparece alguém que de repente nos mostra outra forma, uma variação bastante interessante do tema inicial.

Falo isso porque nos últimos dias eu tenho sido bombardeado por versões renomavadas de “verdades absolutas” que eu tinha em mente. É uma forma nova de fazer um prato (que aliás era o único que eu realmente cozinhava bem) e que me mostra que um sabor pode ser muito melhor do que eu imaginava (será que vou ter a chance de cozinhar para alguém?). É uma história que eu achei que só poderia ser contada de um jeito e dá origem a um filme que me surpreende.

Sou obrigado mesmo assumir que é muito gostoso ver que alguns castelos que eu imaginava eternos e imponentes eram na verdade de areia e bastou chover no tempo certo para vê-los ruir. Como eu me sentia preso no calabouço desses castelos, ao vê-los sucumbir, me senti livre e finalmente pude ver a luz do sol.

E assim pude ver no mundo novas cores. Pude perceber que nas flores existe um perfume especial, que parece naturalmente feito para mim. Pude finalmente entregar-me aos sorrisos que me dirigem e sonhar com amores, para os quais quem sabe eu entregue flores, quem sabe elas realmente pensem em mim?

É divertida a sensação de que agora qualquer coisa possa realmente acontecer. A ideia de que no mundo existem muito mais dimensões do que realmente acreditamos. É a sensação de que se pode tudo, de que se é capaz de fazer qualquer coisa. Afinal, as regras que regem o universo são muito mais frágeis e variáveis do que a gente realmente acredita.

É engraçado relembrar que eu já tenho tomado sustos assim a algum tempo. Ideias que tem derrubado meus mais arraigados preconceitos e que tem de alguma forma me deixado mais feliz. Eu que nunca gostei de rap, anos atrás ouvi um do Zeca Baleiro e curti o resultado, mas era de um cara da MPB, assim não valia. Ai ouvi Criolo cantando “Não Existe Amor em SP”, me rendi ao som e movimento. Não que eu tenha virado fã, mas vi ali muito mais do que protesto, vi uma arte que me tocou e me fez pensar.

Assim como eu ainda me sentia preso a um amor antigo. Daqueles que morre mas nos leva junto. Achei que nunca mais pudesse amar. Me interessar de forma verdadeira por alguém. E de repente me vejo sonhando acordado. Elas existem e retornaram em outros corpos, minhas musas caminham por ai no corpo de mulheres  interessantes que me fazem rabiscar linhas mal traçadas com versos frágeis e idéias fortes na cabeça. Sim. Tem gente por ai que faz meu coração bater mais forte. Só que agora ele bate forte e livre, porque não tem mais medo do seu ritmo não ser ouvido. A canção das batidas está solta por ai, e a musa que a ouvir vai dançar no mesmo ritmo que eu.

Afinal, existem beijos e beijos. Cada um tem seu sabor. E podemos sim gostar de mais de um. Afinal, existem desejos e desejos, e eles tem cada qual a sua cor. Preto, branco, azul, amarelo, multicolorido. Existem cores para todo sorriso. E todos eles tão bonitos me encantam com a junção de cor e sabor.

Não, eu não me sinto num restaurante onde eu tenha que provar cada prato feito por um chef diferente até encontrar a refeição perfeita. Mas nada mal também me dar o direito de perceber que existe sim mais de uma opção agradável e se faço a escolha por determinado bistrô, é porque eu tenho a certeza do que quero. Se ele não quer me atender porque eu não uso as roupas que ele espera, sinto muito, outro vai me oferecer refeição tão saborosa e provavelmente num ambiente mais agradável.

É nessa linha de pensamento que surge a música de hoje. Eu me lembro de tê-la ouvido a primeira vez cantada num show do Paul McCartney. Nem sabia que tinha inicialmente sido gravada pelos Beatles. Adorei já na primeira audição. É a típica canção que eu um dia sonhei em tocar para alguma namorada no violão. Achei-a perfeita, simples, mas perfeita, sem poder ser modificada. Eis que ouço no rádio a pouco tempo atrás, uma versão mais “jazz”, gravada pelo John Pizzarelli. Outro jeito de fazer algo bom, e sob diversos aspectos ficou bem melhor as outras duas versões que eu conhecia.

Um jeito diferente de fazer algo que eu achava definitivo. Um jeito que me agradou muito. Acho que dessa forma, pelo menos por enquanto eu nunca seria capaz de tocar. Mas bem que a gente podia sentar num local e ouvir juntos, quem sabe? Falta só ela aparecer e me dizer o que acha da ideia. De repente até me apresenta alguma forma mais interessante. Pena eu não achado um vídeo da versão do Pizzarelli no youtube. Se você quiser ouvir a versão, clique no link e se deleite http://www.myway.pt/musica/john_pizzarelli/01dd4023-8124-463b-82ca-788de21d4b73.aspx Se alguém achar algum vídeo dessa música, por favor me mande o link. Se alguém tiver alguma história de mudança de paradigma e quiser contar, aproveite, o espaço é seu.

Paperback Writer – The Beatles

São as palavras que me mantém nos trilhos

As férias acabaram a alguns dias. Não fiz metade do planejado, aliás os planos pra variar mudaram durante o percurso e como sempre nem no velho nem no novo planejamento as coisas planejadas pras férias deram certo, mas isso acontece sempre. Hora de mudar o foco de novo.

Falo em mudar o foco porque agora não sobra mais muito tempo pras lamúrias e reclamações. É trabalho direto até dezembro, coisas que com certeza vão cair do nada e precisarão de resolução, nem reclamo disso, no fundo essa é a parte legal do trabalho, a sensação de que sou realmente necessário em algum lugar fazendo alguma coisa. É a total falta de amor próprio provavelmente minha terapeuta vá dizer, mas é verdade, no fundo o legal do trabalho é me fazer sentir-se útil.

Não que eu fuja do padrão de querer coisas novas. Não que eu não diga que hoje ao final do expediente faltavam dois dias a menos para as próximas férias. Mas, estranhamente, mesmo os receios profissionais que eu tenho, mesmo o cansaço da atividade e outros problemas que surgem pra todo mundo, mesmo tudo isso acaba sendo recompensado pelo fato de me sentir útil.

Se perguntar diretamente a mim se realmente sinto prazer trabalhando, se faço aquilo que mais me dá prazer. Não conseguirei mentir e dizer que faço. Eu não desgosto do que faço, muito pelo contrário até, mas confesso que preferia fazer algo mais intimista, com menos gente, menos contato com aquilo que no fundo mais me assusta.

Se eu pudesse escolher e tivesse habilidade suficiente, gostaria de viver apenas escrevendo e fotografando, até por isso coloquei a música dos Beatles no título deste tópico. Me imaginando escrevendo livros de bolso, roteiros de cinema, romances best seller, poesias de qualidade, enfim, gostaria sim de ser um grande autor. Até tem gente que vai falar que eu já sou um autor, tenho este blog, escrevo de vez em quando em outro, o Devaneios Lúcidos, tenho um livro publicado e agora brigo com a falta de capacidade de concentração para escrever meu próximo livro de fotos e poesias. Pensando assim, eu sou mesmo um autor, mas não um grande autor.

Para chegar lá, ainda tenho que melhorar muito, ler muito, estudar muito e me manter fazendo diversas outras coisas, inclusive dar aulas. Não que seja ruim viver das aulas, mas seria mais divertido e interessante conseguir ser um autor tempo integral. Assim como alguns músicos caseiros gostariam de viver de música, alguns jogadores de fim de semana gostariam de viver do esporte e por ai vai.

Não vivo meu sonho ainda de modo pleno, mas confesso que estou em busca. E justamente é esse o momento chato do fim das férias. Falta tempo para escrever do jeito que eu gostaria. As responsabilidades agora são outras e os textos ainda não pagam minhas contas. Falta tempo para ler os livros que gostaria, os blogs que gosto de seguir e até tempo para descobrir coisas novas. Atrasar essa parte da minha vida por seis meses causa uma dor quase física.

E aqui quando falo da escrita, por incrível que pareça, tem muito menos a ver com os textos que mostro e mais a ver com os textos que me libertam. É claro que a gente sempre escreve pro outro, mas sempre tem os textos que eu nem faço pensando em mostrar pra alguém e sim pra mim. Textos que funcionam de maneira quase tão intensa quanto as sessões de terapia (se eu falar que eles tem a mesma força a terapeuta vai brigar comigo…rs). E principalmente textos que no fundo trazem prazer. Escrever é hoje o principal prazer que eu tenho, aliás acho que escrever sempre foi o maior prazer em toda minha vida.

Esse prazer vem do fato de que só quando escrevo eu me percebo realmente autêntico. Só com as palavras eu me sinto realmente livre. Parece que cada palavra carrega um pouco dos meus medos pra fora de mim.

Aliás, é engraçado, dos meus medos do fim das férias, o único que realmente me magoou e que ainda dói é perceber que terei menos tempo pra escrever. Eu até escrevo mais da minha fase encalhado, dos medos diversos que eu tenho na vida e tudo mais. Mas o que me incomoda é a escrita. Sei que provavelmente continuarei encalhado por muito e muito tempo. Faço piada com isso, como faço com muita coisa. As vezes me sinto sozinho. Sei que tenho um monte de medos, como o medo de lugares cheios (apesar de dar aulas), tenho medo de diversos lugares (que sou até obrigado a visitar) e tudo mais, mas se posso escrever sobre, me sinto muito mais forte.

Perder essa força justo agora é que está sendo difícil de engolir. Eu já estava me acostumando a todo dia ter um certo tempo pra falar com o computador, a folha de papel e a caneta sobre minhas dores. Pena que agora será raro. Prometo atualizar sempre o blog, estes textos eu sei que farei, mas já sinto falta dos textos que eu faço e nunca mostro pra ninguém. E você exorciza as pequenas dores do cotidiano?

Let it Be – Across the Universe

Quem não se encanta com um belo sorriso como esse?

Essa semana foi corrida a maluca, mas as ferias chegaram, finalmente chegaram, eu preciso e muito delas pra tentar colocar a cabeça no lugar e mesmo tentar produzir algo diferente (tudo bem que mais de uma semana já me cansa, mas isso é pro próximo post). Eu até poderia continuar falando do Saramago, mas as férias me fazem falar de outra coisa. Não só as férias, mas também algumas conversas que tive nessa reta final.

Tenho conversado com bastante gente nesses dias e invariavelmente eu vejo várias delas tristes, cansadas, desanimadas. Excesso, esse seria o primeiro movimento a se pensar, certo? Foi a minha primeira ideia também, e achei que isso resumia tudo, mas na verdade, a coisa só toma esse caminho até a página 2. A coisa é bem mais profunda e dolorosa.

Uma pessoa não cansa de me dizer que somos o reflexo daquilo que o outro enxerga. Já tivemos discussões a respeito disso, na maioria das vezes eu discordo. Confesso, entretanto que nesse caso sou obrigado a dar mão a palmatória e admitir que realmente estava enganado. É justamente isso que vejo nessas pessoas o tempo todo. E só cheguei a essa conclusão quando percebi que isso acontecia claramente comigo, a partir deste ponto, extrapolar foi algo bastante simples.

Eu falei com gente que se dizia cansada e desmotivada por não saber se seu trabalho realmente está bem feito. Por não ter qualquer sinal do mundo que indique que a coisa está andando na direção certa. Eu vi muita gente perdendo o humor por ter a percepção (talvez falsa) de que aquilo que se faz com mais empenho e importância acaba tendo menos importância do que papéis que na verdade todos sabem que não levam a lugar nenhum, pelo menos na parte do processo em que se atua. Enquanto tudo o que se desdobra pra se fazer bem feito porque é onde realmente a coisa acontece, nem é levado em consideração.

Sem pequenas respostas positivas do que nos cerca, a nossa confiança vai sendo pouco a pouco destruída, perguntamos a nós mesmos para que seguir adiante, ou mesmo se temos capacidade para tanto. Os questionamentos muitas vezes acabam sendo mais dolorosos do que a realidade e isso traz uma forte depressão e medo. Temos medo de qualquer pequeno passo, qualquer ação passa a parecer irrelevante demais ou o que é pior, passa a ser vista como algo além das nossas necessidades. Eu tenho pontos em minha vida em que me sinto exatamente assim. Algumas coisas parecem não fazerem parte daquilo que eu posso alcançar.

Nessa linha e até pensando na música que escolhi e principalmente na foto que ilustra este post. Semanas atrás fiz um trabalho que de certa me reconfortou. Eu sou professor, apesar de um imenso medo de gente, eu trabalho com pessoas e por menos que se possa parecer. Eu realmente me importo com algumas pessoas que convivem comigo. Ver algumas delas sucumbindo diante de um monte de situações diversas, ver estas pessoas sentindo dificuldade pra realizar coisas que sabidamente elas realizariam em minutos, tanto por falta de confiança, quanto pelo excesso, me incomodou.

Surgiu, meio por acaso, a chance de fazer um “pequeno agrado” a algumas pessoas. Fiz fotos com um objetivo muito claro pra mim (que era diferente da de quem me propôs a atividade). Eu só queria mostrar numa fotografia que as pessoas fotografadas eram muito mais belas, inteligentes e especiais do que imaginavam naquele momento de desgaste físico e emocional causado pelo sistema maluco em que estavam inseridas.

Fiz assim algumas fotos das pessoas e um deles é o que ilustra o post. Foi divertida a percepção do trabalho. No início a grande maioria das pessoas estava com medo da câmera, uma insegurança forte diante do que seria feito. Após verem as imagens, gostaram do que viram. Isso me alegrou, até porque era o que eu queria. Fazer algo que mesmo que momentaneamente alegrasse as pessoas que eu cliquei.

A escolha da música também partiu disso. Eu estava na dúvida, confesso. Mas dois dias atrás tive acesso ao pendrive de uma das pessoas que cliquei e vi ali as músicas do filme Across the Universe. Eu adorei o filme (tenho em casa) e gosto pra caramba dos Beatles. Logo buscar uma música no filme foi até uma atividade divertida. Chegar a “Let it be” foi assim parte do processo e o vídeo é de uma cena do filme.

A escolha de “Let it be”, tem a ver com a forma como muitas vezes nos apresentamos. Necessitados de uma palavra sábia num momento de escuridão. Um afago vindo de alguma “mother Mary”,  que nesse caso específico eu tentei sei, não sei se consegui, mas ao menos alguns sorrisos mesmo que contidos eu consegui, como esse belo sorriso ai da foto.

É normal perceber que cada pessoa tem seu calcanhar de Aquiles. Um ponto onde se mostra mais frágil e que precisa sim de mais estímulo para acreditar que pode. Um ponto onde sua auto confiança parece menor, na maioria dos casos por besteira, mas essa besteira nos impede de agir. É como o atleta que rende mais se o técnico diz que ele pode fazer, o aluno que precisa da confirmação do professor a cada questão respondida ou o namorado que precisa a todo momento de alguma confirmação dos sentimentos da pessoa amada.

Tudo isso, é claro, fez-me pensar também na minha situação e assumir que ainda não sei se o que acontece comigo é falta de capacidade ou falta de retorno do meu entorno. Assunto pra muitas sessões de terapia e de certa forma um pequeno alento, vai que sou menos incapaz do que eu me imagino?

OBSERVAÇÃO:  Eu começo agora a também escrever em um outro espaço, um blog coletivo iniciado pela minha grande amiga Lak. Lá eu devo colocar um tipo diferente de textos, provavelmente mais poesia, já que estou disposto a publicar um novo livro de fotos e poesias ainda neste ano.

O link do blog está aqui (www.devaneioslucidos.wordpress.com) e também nos sites que indico

Penny Lane – The Beatles

assim como a flor precisa da abelha, a abelha precisa da flor

Ainda pensando em Forrest Gump, no que escrevi no último texto, eu retomo um antigo post meu o Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Quero retomar essa ideia relacionando isso com a responsabilidade dos nossos atos. Se da outra vez eu falava de um coração amargurado (o meu), hoje eu quero voltar ao tema pensando na responsabilidade dos atos.

Talvez a música que mais próximo se aproxime do que eu quero falar seja Penny Lane, principalmente nesse desenho animado que eu uso como referência (clique para ver). Nessa história os rapazes de Liverpool falam de situações comuns, de pessoas comuns de sua vida. Acontece que como pode ser facilmente visto no desenho, essas pessoas comuns possuem comportamentos comuns que interferem na vida de outras pessoas.

Até ai nada novo, eu escrevi exatamente isso no texto passado. O que muda aqui é a responsabilidade. Pensando em Forrest, ele de certa forma fez uso de seu jeito simplório (me falaram abobalhado, mas não penso dessa forma) e marcou todo mundo que passou por sua vida de uma forma positiva, só com existência em primeira instância e companhia em segundo estágio.

Vendo essas coisas me lembro também de um ditado batido, fazer o bem sem olhar a quem. Acho que ele faz sentido quando visto sob o olhar de quem lidera algo. Quando você faz algo e percebe que alguém fica feliz por suas ações, você sente uma leveza. Esse talvez seja o pagamento por fazer algo de bom. Ninguém é bom por ser, mas sim porque o prazer que se recebe por um ato bom é uma sensação maior do que a ofertada.

Nós costumamos cativar pessoas esperando esse tipo de sensação. É um mimo num aniversário, um jantar especial ou simplesmente um bom dia sorrindo. Ações comuns que fazemos para de certa forma não passarmos despercebidos. Eu atuo como professor, confesso que gosto quando percebo que uma ação minha faz diferença em algum aluno. Tenho a impressão de ter feito a coisa certa e uma sensação de dever cumprido.

O problema é que não somos como o Forrest, nem todas as nossas ações são positivas. Vale voltar ao desenho, o desejo do Paul por fama cria certa confusão. Pequenas ações cotidianas nossas possuem efeito parecido. É uma frase mal colocada, um olhar desviado que fazem alguém se sentir mal.

Claro que preciso entender que isso é fruto do fato da nossa espécie ser sociável. Cada pessoa reage de forma diferente ao que se apresenta aos seus olhos. Mas tomar certo cuidado com a forma como se age deveria ser a tônica de todos, e não o oposto como geralmente ocorre. Esse movimento de perceber até onde nossas ações afetam os outros e pesar os efeitos de cada ato ainda é pouco comum. Vemos isso profissionalmente, mas e nas relações interpessoais?

Nesse ponto, algo que muito me chateia é perceber como pessoas que nitidamente se amam se machucam tanto. É comum ver como pessoas extremamente próximas perdem seu auto controle e partem deliberadamente para a agressão ao outro. Quem ama é justamente quem mais fere. E a ferida acaba sendo mais profunda porque nunca esperamos esse tipo de ação, além do agressor conhecer com bastante propriedade os nossos pontos mais frágeis e dolorosos.

Nessas ações, invariavelmente após os momentos de raiva doentia, tanto agredido quanto agressor sentem a dor do ato. O efeito nunca fica apenas numa pessoa. Por mais que um dos lados afirme que não sente nada, nunca vi um caso onde isso realmente tenha acontecido. Por vezes os lados chegam a um meio termo e a boa convivência volta, mas algumas feridas infelizmente não se fecham nunca.