Simply the Best – Tina Turner

 

 

Deixei pro final o herói mais estranho do filme. Justamente aquele que eu mais gosto. Estranho eu apontar justo um personagem tão propaganda de uma nação quando o bandeiroso Capitão América. Personagem criado para servir de propaganda das campanhas americanas na Segunda Guerra Mundial, representava o “bom” povo americano querendo defender o resto do planeta do inimigo mortal representado pelo nazismo.

Propaganda total do American Way of Life. Defesa de um sistema de vida que em alguns aspectos eu nunca defendi. Nunca fui americanófilo (e muito menos americanófobo). Curto muita coisa da cultura americana (música, alguma coisa da literatura, a forma como eles amam seu país, etc, etc, etc.) Odeio outro tanto de coisas, como a alienação geral da população em relação ao resto do mundo e o excesso de consumismo (tá eu assumo que sou consumista, mas não como eles).

Assim, quando eu falo que gosto muito do personagem. Não estou passando um atestado de que aprovo tudo o que vem da América do Norte. Aliás, muito pelo contrário. Mas sim que gosto de algumas coisas que o personagem tenta vender. Incrível como o personagem faz coisas que eu tento fazer e até que eu gostaria de fazer mais vezes.

Tudo começa já pela lógica de criação do herói. O tal soro do supesoldado eleva o homem ao seu máximo, físico e intelectual. Não que o capitão seja gênio, mas tem um raciocínio extremamente rápido. Algo muito mais importante do que o físico desenvolvido.Confesso que muitas vezes eu sonho em me tornar um homem perfeito. Sonho em tentar atingir o máximo do ponto de vista intelectual, moral e físico.

Claro que não busco o corpo sarado, quero apenas um corpo saudável, livre de doenças e que me permita envelhecer bem com ele. Não penso em ganhar um prêmio Nobel, mas procure ler bastante, tento manter a mente desafiada e funcionando. Tento trabalhar com meu cérebro nas formas que conheço. Quanto a moral? Sigo a moral que acredito. Tento ser uma pessoa boa, ajudar quando posso, ensinar quando sei, aprender o tempo todo. Vivo nesse mote numa eterna busca por criar um mundo cada vez melhor.

Ainda me sinto cativado por outros pontos do personagem. O senso de liderança e a busca eterna por justiça. A capacidade de assumir os erros (até os perfeitos erram, o homem perfeito vai continuar errando e justamente por errar, mesmo em seu máximo será capaz de aprender). Saber estimular o máximo de quem está ao seu redor é algo que sonho toda vez que entro na sala de aula. Penso em como gostaria de realmente fazer meus alunos chegarem ao seu máximo. Falta muito pra que eu consiga chegar lá. Não me custa nada continuar tentando.

Nesse ponto eu jogo fora o ufanismo exacerbado do personagem, fico entretanto com a defesa de seus ideias. Não os ideais em si, mas a capacidade de lutar sempre por aquilo que se acredita e se preciso for, morrer lutando por uma verdade pessoal.  Sei que esse tipo de ação beira a estupidez aos olhos de muita gente, mas pra mim, lutar por aquilo que se acredita é mais do que necessário. Lutar por nossos sonhos é o que nos move. Quando a gente para de sonhar, a vida simplesmente perde o sentido. Por isso, vejo no homem perfeito a capacidade de sonhar eternamente. Só com os sonhos conseguimos ser eternos.

We Don’t Need Another Hero – Tina Turner

Quando aprenderemos a somente louvar alguém pelo que ela é boa e não execrar todos por suas falhas?

E teve a esperada zebra na final do SuperBowl. Mais um herói do sonho americano foi criado. Assisti ao jogo e confesso que com todo o clima criado era impossível torcer pelos Colts, a torcida toda era pelos Saints, na verdade pela cidade de New Orleans. A vitória serviu como marco do renascimento após os problemas com o Katrina anos atrás. A cidade se reconstruiu, o time se construi, nas últimas temporadas pós Katrina, pulou de saco de pancadas para campeão.

O herói foi Drew Brees, atleta que por si só já teria uma história de vida que daria um filme, aliás não duvido que em alguns anos essa história seja transformada em filme. Como disse no último texto, os norte-americanos adoram criar heróis, nós brasileiros adorar ridicularizar os nossos.

O cinema acaba sendo uma referência, quantos filmes existem sobre heróis brasileiros? O futebol, provavelmente o tema que mais nos dá orgulho no mundo nos trouxe que filmes? Boleiros 1 e 2 são ótimos filmes, mas estão mais para comédia, assim como o divertidíssimo como O Casamento de Romeu e Julieta. Temos uma biografia do Garrincha e documentários sobre alguns craques. Mas cinema comercial mesmo, nada. Talvez os documentários sobre a conquista corinthiana em 77 e o filme sobre o martírio da série B (eu acho que tem um filme sobre a Batalha dos Aflitos do Grêmio, mas não tenho certeza).

Nós renegamos nossos heróis. Algo como Tina Turner cantando We don’t need another hero (clique aqui para ouvir) em Mad Max além da Cúpula do Trovão. Criamos um mundo apocalíptico onde todos só tem defeitos, as qualidades são empurradas pra baixo do tapete. Tiramos sarro de tudo e de todos e principalmente daqueles que possuem algo que se destaque. É o complexo de vira-latas que domina o ideário do nosso povo.

Aceitamos de bom grado tudo o que vem de alguma nação mais poderosa economicamente, destruímos pouco a pouco a nossa cultura acreditando que o que vem desses povos é melhor do que o que nós produzimos. Eu discordo disso. Assim como também discordo da outra face desse mesmo embate. Não somos melhores do que nações mais pobres, somos iguais, apenas temos que aprender a ver o que cada um tem de bom, reverenciar e aprender com isso e ver o que cada um tem de ruim sem transformar isso numa brincadeira jocosa. O que vale não é de onde você veio, mas sim o que você é.

Acho estranho não termos documentos populares (músicas, esculturas, filmes, etc.) sobre pessoas como Guilherme Paraense, João do Pulo, ou Ademar Ferreira da Silva. Guga um herói recente já foi esquecido. Rui Barbosa não é visto nem nas escolas. A nossa produção cultural é relegada ao segundo plano, aliás, eu nesse post não uso uma canção brasileira. Meio estranho, mas verdadeiro. Eu tenho que assumir minhas falhas também.

Converso as vezes com alunos sobre alguns grandes nomes brasileiros, é chato descobrir que estes nomes nunca são sequer reconhecidos. Mais chato ainda é perceber que pra ser reconhecido, a validação da qualidade deve ser externa. Não vale apenas ser importante para o nosso país aqui dentro. É  preciso ser reconhecido por alguma grande nação, aliás por alguma nação que seja vista como grande aos nossos olhos.

Parabéns Drew Brees, parabéns New Orleans, parabéns Saints. Mas também parabéns a imensa quantidade de heróis que vivem aqui em nosso pais e nunca são reconhecidos, talvez por descrença, talvez por inveja. Parabéns aos nossos bons heróis.

O próximo post volta a falar do Forrest Gump, e retomo um assunto que até citei, só que visto do outro lado da moeda. Quero falar da necessidade de se ter heróis, mesmo sabendo que no fundo os heróis são apenas o retrato do homem comum, eu admito a importância dos mesmos para a construção dos homens das nossas sociedades.