Fanfare For The Common Man – Emerson, Lake & Palmer

é preciso se ver livre dos falsos amigos

Todos temos nossos dias melancólicos. Algumas fases em que a gente fica pensativo demais e para de ver as cores do mundo. Tudo fica em branco e preto, com alguma sorte fica cinza acontecem com todo mundo. Em alguns com mais ênfase do que outros.

Eu estou numa fase pensativa. Relacionar com datas como o meu aniversário na sexta passada é reduzir demais aquilo que eu estou pensando e sentindo. Estou mesmo saturado das limitações. Cansado dos extremos. Quero sim uma vida mais equilibrada. Uma vida comum, se é que isso existe. Afinal, todo mundo tem um ponto onde seu calo realmente aperta e trocar o sapato apertado nem sempre é a coisa mais simples a se fazer.

Li a pouco um texto sobre os problemas de Blaise Pascal, a forma como ele foi tratado de seus problemas de estômago. Li num blog de uma amiga querida, não sei se posso citar aqui a fonte, se ela ler esse post e permitir eu faço a edição. Hoje também foi um dia em que eu resolve escutar algumas músicas velhas, entre elas uma do Emerson, Lake & Palmer que eu adoro, chamada Fanfare for the Common Man (clique para ouvir uma versão), rock progressivo da mais alta qualidade. Além disso, ainda fazendo uns textos para um trabalho fui dar uma fuçada na minha estante de DVDs pra tirar algumas ideias. Meus olhos pararam num filme, Rain Man, e comecei a chorar.

Quem me conhece sabe que eu tenho uma ligação forte com esse filme, por alguns motivos bastante pessoais. É engraçado que eu adoro a história, adoro muito. É um dos filmes que mais gosto, mas nunca tive a coragem de citar. Talvez por ser um filme que tem um quê extremamente pessoal. Eu em vários momentos me vejo no personagem vivido por Dustin Hofman.

Pra quem não viu o filme, Tom Cruise, por diversos motivos, acaba sendo obrigado a tomar conta do irmão autista (Dustin Hofman). No caso o autismo é bastante claro e intenso. Percebem-se todos os sintomas clássicos do comportamento. Manias, fobia social, fechamento num mundo particular e por ai vai. Para quem desconhece o tema, existem diversos graus de comportamento autista, do mais leve, onde a pessoa é basicamente apenas alguém meio estranha, até o mais pesado, onde existe uma quase impossibilidade de socialização.

Mas voltando ao tema. Tom Cruise passa a fazer uso do irmão, das habilidades que ele demonstra (apesar da dificuldade de se relacionar com o mundo). Se aproximando dele basicamente por necessidade. Com o tempo é que as coisas mudam e ele passa a demonstrar preocupação e carinho pelo personagem de Dustin Hofman. Nessa linha surgem dois temas para serem ditos, duas coisas que de certa forma me incomodam muito.

O fato de algumas pessoas se aproximarem só quando precisam. Perceber que isso é apenas por necessidade do outro e não sua. Não existe nada em troca, tudo é falso. Você sabe fazer algumas coisas bem e alguém que sabe disso e precisa dessas suas habilidades solicita seu auxílio. Nada de mal nisso, porém, o ideal seria a troca. Seria estar disponível para o outro lado. Seria entender que aquela pessoa que está te ajudando também precisa de ajuda muitas vezes.

Falo isso porque tenho me sentido bastante usado nesses últimos tempos. Solicitado pra coisas diversas, problemas leves ou nem tanto, em geral coisas que até consigo resolver. Em é o problema ajudar, mas poxa, será que não existe mais espaço pra um muito obrigado? Pra qualquer demonstração de que a pessoa que faz o favor também importa e não só a ação?

Ampliando bem o olhar, fica claro de que isso não ocorre só comigo, mas também ocorre com muita gente. O número de pessoas que encontro por ai e só tem olhos pro próprio espelho é imenso. Gente que acredita que o mundo gira ao redor do próprio umbigo e que todos os demais estão no mundo para servir seus caprichos, servir com um enorme sorriso pois deve ser uma honra servir pessoa tão importante.

Cansei desse tipo de convivência. Até entendo ser subserviente mas é engraçado ser visto como alguém que só serve para resolver problemas. Cortei muita gente da minha lista de contatos ultimamente por agirem comigo dessa forma. Pretendo continuar excluindo quem assim agir comigo. Aliás, acho que todo mundo deveria fazer isso. E aqueles que acham que são mais importantes do que os outros, bom, esses que cresçam e encarem o descaso como uma lição.

Post meio nada a ver, eu sei, mas é como eu estou me sentindo, o próximo falará do outro aspecto que me toca no filme Rain Man. Tem algum filme que te toca a ponto de você nunca esquecê-lo?

Cure for Pain – Morphine

O caminho mais seguro é sempre o que leva em consideração o que a gente sente

 

Hoje é dia de terminar a minha sequência de posts sobre o livro Uma Longa Queda do Nick Hornby (de novo eu recomendo fortemente a leitura deste livro). É hora de falar do JJ. Talvez o personagem que mais tenha a ver comigo em suas crises existenciais. Eu diria que em diversos aspectos eu e ele temos graus de loucura parecidos. Ambos caminhamos um bom tempo por ai buscando a cura para a dor. Uma dor mental que acaba se tornando física.

A trilha sonora, é claro continua sendo Morphine e mais óbvia impossível, Cure for Pain (clique para ver e ouvir). Posso também afirmar que este post tem uma ligação forte com o anterior onde usei uma música do Jethro Tull (clique para ler o post anterior) para fazer uma homenagem para alguém que realmente tem me encantado como pessoa. O Mark Sandman sempre fazia uma homenagem ao público na abertura e nas músicas que considerava especiais em seus shows, eu de certa forma fiz isso.

Primeiro a homenagem, agora o texto. JJ é um músico americano que viu sua vida mudar totalmente de uma hora para outra sem aparentemente grande influência sua. Sua banda que tinha fãs e algum sucesso de crítica implodiu, perdeu sua namorada e num país distante se viu trabalhando como entregador de pizza. Tudo o que ele fazia ruiu de uma hora para outra. O que mais chama a atenção aqui é o fato de que claramente ele sofre mais a perda da parceria que tinha na banda do que a perda da namorada, porém, uma frase que ouviu de sua namorada parece ser o grande motivo de sua tristeza e descaso com a própria vida.

JJ se considera músico. É alguém que tem algum talento e alguém que gosta de cultura, lê muito, ouve muita coisa, aparentemente gosta muito de arte e não é alienado (fato raro, geralmente os norte-americanos são vistos como alienados e os europeus mais culturais, isso em filmes e livros, não conheço norte-americanos e europeus bem o suficiente pra ter uma opinião consistente sobre o tema. JJ é aquele cara que aparentemente tem tudo pra dar certo e por algum motivo alguma coisa não dá certo. Essa é a primeira impressão.

Procurando adentrar um pouco mais no universo do personagem algumas coisas ficam claras e ai é que eu me encontro totalmente com JJ. Primeiro ele me parece ter dificuldade com algumas leituras de outras pessoas. Nesse ponto eu sou mais analfabeto emocional do que ele, mas digamos que em alguns casos ele conseguiu ser tão raso quanto eu na informação que coletou. Outro defeito que ambos partilhamos é o de sempre achar que a culpa por algo não funcionar é nossa e ainda nessa linha, ao inferir qualquer coisa sempre acreditar que das possibilidades existentes quando algo não está exatamente em nossas mãos, é sempre a pior que vai acontecer.

Essa falta de auto-estima me mata tanto quanto quase mata o personagem e mata tanta gente por ai. Não é achar que o mundo todo existe contra você. Muito pelo contrário, a sensação é outra. É a de que você não faz parte do mundo. Você é o errado e por isso as coisas não funcionam.  Esse tipo de pensamento parece imbecil, até certo modo é imbecil, mas sejamos sinceros, muita gente se sente assim. Eu assumo, me sinto assim o tempo todo. Parece que a culpa é sempre minha.

Nessa linha, a dor de se manter vivo parece imensa. Porque as vitórias acabam funcionando apenas como obrigação, você faz bem feito e pronto, o resultado está ai. Se algo não funciona a contento, a culpa é sempre sua. Morphine mandou bem na letra. É preciso achar a cura para a dor, seja qual for a dor que se sinta.

Tem outro ponto em JJ que me fez pensar muito na vida que levo. JJ em momento algum canta para o grupo, toca ou compõe, ele parece brigado com a música. Porém, ele nunca deixou de ser o músico que é. Antes de se considerar qualquer coisa, ele é um músico. Eu falei bem por cima disso no texto homenagem. Homenageei alguém que é sem precisar mostrar nada a ninguém. Eu muitas vezes me pergunto se deixo minha essência tão clara quanto a pessoa homenageada e JJ deixam.

Um lado interessante está além da qualidade. JJ é músico mesmo que não tenha a qualidade e o carisma de um mega astro, ele é quem é, não precisa sonhar em ser John Lennon. Eu, bem ou mal, me considero um artista, um poeta (não sonho em ser Drummond, mas quero ser eu mesmo) e um fotógrafo (que não quer ser o Ansel Adams). Preciso entender que eu sou apenas eu. No que isso tem de bom ou de ruim.

Até acredito que JJ tinha sim motivos convincentes para se matar. Se a coisa está ruim, essa seria uma mudança bastante radical, mas uma mudança. Não sei se eu fugi de mim mesmo de forma semelhante a ele. Espero que não, mas também me sinto muitas vezes oprimido, sozinho e perdido. A solidão vem do fato de eu simplesmente não conseguir ler e ser lido nesse mundo que me cerca. E ai falo não dos meus textos (tá eu confesso que adoro ler os comentários de quem visita este espaço), mas sim falo dos sentimentos que eu deveria sentir e entender.

Buena – Morphine

A capa do meu livro talvez seja a maior expressão dos meus fantasmas exteriores, ao menos ao meu alcance

Chegou a vez da Jess, talvez a personagem mais engraçada da história toda. Uma típica adolescente dos filmes americanos que mostram jovens desajustados. Relacionamentos tortuosos, drogas, sexo, falta de sentido na vida e alguma busca por algum prazer irreal. Esse seria um bom resumo da Jess, faltando, é claro, citar que ela é filha do ministro da educação britânico, ou seja, chama, mesmo que não queira, os holofotes para si.

Menina que cresceu com vários demônios internos após o sumiço da sua irmã mais velha. Jess encontrou no desajuste uma forma mais fácil de se fazer percebida por seus pais e em menor escala por ela mesma como parte do mundo. Ao som de Buena (clique para ver o clipe), som do Morphine como a música escolhida para o post do Martin, consigo visualizar Jess caminhando por ai com seu demônio interior e o apresentando a todo mundo que ela conhece com a maior serenidade que um ato como esse pode ter.

Não vou falar dos desajustes da garota, nem vale a pena. Acho que o melhor agora é elocubrar sobre o que a levou a subir ao edifício, e ai nem falo dos fatos, mas das sensações envolvidas no processo todo. Os demônios interiores que cada um de nós vivemos carregando por toda a nossa vida.

Jess tem o fantasma de sua irmã pairando sobre ela e sua família. Nunca digeriu o sumiço de alguém que de certa forma dava equilíbrio a sua vida familiar. Dissecando a maluca inglesa eu fico pensando nos meus demônios, nas perdas que tive, não aquelas pequenas perdas diárias que temos todos os dias e no fundo nem deveriam contar como algo que altere o nosso humor, mas sim as grandes perdas. Aquelas que nos marcam profundamente, gerando cicatrizes bastante aparentes, ou, em casos mais graves, feridas que nunca se fecham.

Essas feridas profundas fazem com que a gente não consiga mais raciocinar direito, e de certa forma fazem com que o nosso comportamento todo mude em função das perdas. Esses demônios internos demoram a ser exorcizados. Infelizmente alguns deles persistem por toda a vida. Imagine o que é para um pai viver com a lembrança da morte de uma filha num acidente doméstico que ele poderia ter evitado? Ou uma criança que nunca brincadeira banal acaba causando feridas graves a um amigo? Difícil viver com essa carga. É claro que esses são casos extremos de culpa, mas servem para exemplificar bem o que eu penso.

Entretanto, vejo meus demônios de um jeito diferente. Seria uma enorme mentira minha sair por ai falando que adoro a vida e tudo mais. Tenho demônios demais pra isso. Só que, eu não quero de maneira alguma me tornar um demônio na vida de outras pessoas. Provavelmente é isso que me mantém vivo. A total falta de sanidade e o medo de fazer com que outras pessoas sintam as mesmas sensações tristes e pesadas que eu sinto são o combustível mais real e funcional que eu tenho pra não passar do suicídio teórico ao prático.

A culpa que as pessoas erroneamente carregariam pelos meus atos poderia gerar uma grande reação em cadeia. Por mais que se diga que a culpa nunca é de quem ficou, mas sim de quem partiu, dificilmente as pessoas conseguem se isolar dessa sensação. Nesse sentido, o suicídio acaba sendo algo extremamente irresponsável. Não vou me alongar muito nesse tema, porque quero voltar a falar disso depois do post do JJ que será o próximo, mas ainda quero falar bastante disso até o final desse ano.

Cotidiano – Chico Buarque

entender e ajudar a minimizar a dor do outro deveria ser algo extremamente simples e comum, pena que não é...

Como eu havia prometido, começo agora a dissecar um pouco os personagens do livro “Uma Longa Queda” de Nick Hornby. Repito que adorei o livro e recomendo a leitura, me fez pensar num monte de coisas diferentes. Me fez entender e talvez me ajude a elaborar algumas de minhas neuras e o que é melhor, fez isso me divertindo. Fazendo meu cérebro trabalhar.

Aliás, falando nesse tema, fazer o cérebro trabalhar, escolhi pra começar a personagem aparentemente mais frágil do grupo dos suicidas. Maureen, mãe solteira de uma criança portadora de deficiência, o livro não deixa claro qual, mas sabe-se que seu filho não interage com o mundo ao seu redor. A dor que ela sente me remete até certo modo a uma música do Chico Buarque, Cotidiano (clique no nome da música para assistir a um vídeo dele cantando a música).

Apesar de a música falar da mulher sentir certa alegria em todo dia repetir as ações com e para o seu homem (sem discussões sobre machismo, ok? O assunto é outro), nem todo mundo se sente bem com essa falta de mudanças e perspectivas. Maureen se sente mal com o que vive. Não aguenta mais dedicar todo o seu tempo aos cuidados de Matt, seu filho. Não aguenta mais perceber que não vive mais sua vida, não faz nada e nem vê a possibilidade de voltar a fazer. Quantas vezes não nos sentimos presos dessa forma? Quantas vezes parecemos escravos do cotidiano fechado que nos cerca.

Acordar cedo, correr para o trabalho, ao fim do dia correr para a faculdade, chegar em casa cansado e adormecer para repetir tudo no dia seguinte, chega-se ao final de semana e é hora de limpar e arrumar a casa, ir ao mercado, fazer o que ficou pra trás durante a semana. Tudo é feito quase mecanicamente. Bem vindo a vida moderna diriam alguns, mas será que isso tudo é necessário? Conheço um número relativamente grande de pessoas que se sente oprimida o suficiente para se queixar de sua agenda e alguns até poderiam mesmo se matar pela forma como são oprimidos diariamente pelas obrigações. Falta tempo para conseguir ser quem realmente se é.

Até poderia dizer algo sobre falta um culto ao ócio ou algo do gênero, mas não é isso, muitas vezes a falta de atividade pode ser tão dolorosa quanto o excesso de atividade. O desemprego causa suicídios, causa desgosto e muitas vezes sair de uma situação dessas é muito mais difícil do que se pensa.

Nesse ponto Maureen acaba atuando como a voz mais forte de uma multidão insatisfeita com a própria vida. Alguns podem simplesmente dizer, mude sua vida e siga adiante, pare de encher a paciência. A questão é que muitas vezes não se sabe como fazer isso, ou não é possível mudar. Maureen mudou de alguma forma, não conto como foi para que você não desista de ler o (ótimo) livro.

Eu tentei me colocar no lugar dela. Confesso que parte da dor dela acaba sendo minha também, mas em outra instância. Algumas coisas eu poderia e deveria fazer de modo diferente, outras acredito mesmo ser esta maneira repetitiva a melhor possível e até a maneira necessária. Por outro lado, a ignorância (aqui no sentido de ignorar, desconhecer) de Maureen para alguns temas óbvios, me deixou extremamente pensativo.

Fiquei um tempão pensando nisso. O tamanho do mundo de uma pessoa varia de acordo com o que ela vive. Seus sonhos e desejos provavelmente vão ser limitados pelo tamanho de seu mundo. Como o mundo de Maureen era extremamente pequeno se comparado aos outros suicidas, seus desejos mais fortes pareciam bobeira aos olhos dos demais, só que para ela eram algo extremamente importante e forte.

Tentando chegar um pouco mais fundo nessa linha, como cada pessoa conhece e vive coisas diferentes, cada um possui um mundo diferente do outro. Os desejos de um, nesse caso, podem parecer extremamente ridículos e simples para o outro e vice-versa. Ai meu lado mais humanista e Pollyana (sim eu li Pollyana e Pollyana moça, mas não espalhem, por favor) me diz que o correto seria um ajudar o outro a chegar aos seus sonhos e resolver seus problemas, é bem mais fácil resolver a dor do outro do que a sua. O que pega é que infelizmente não é dessa forma que agimos, assim, diariamente mais e mais Maureens se suicidam, eu posso falar por mim, já pensei nisso algumas vezes e por motivos que a grande maioria das pessoas acharia banal.

Crying the rain – A-HA

ams (79)
Muitas vezes choramos sem razão, sorte que algumas pessoas recolhem nossas lágrimas e nos ajudam a levantar

Depois de quase uma semana eu retorno. Sei que deveria ter passado por aqui antes, afinal até tenho o que dizer. Mas tem dias em que tudo parece mais complexo do que realmente é, e você, mesmo sabendo disso, não consegue dar o passo certo da maneira correta.

A escolha da música título desse post tem um quê de saudosismo, afinal A-ha  tocava na minha adolescência (Crying the rain tocou muito) e um quê de falta de criatividade, hoje chove e eu estou chorando, como aliás costuma acontecer também quando não chove.

Os motivos das lágrimas são diversos e não é o momento correto pra discorrer sobre isso. Agora preciso desviar um pouco o foco. No último texto eu falei de 3 pessoas, citei numa alegoria 3 saudades boas que essas pessoas me trouxeram e que de certa forma me mantém de alguma forma vivo.

Hoje conto um pouco da primeira saudade. Falo da sensação de reencontro, do desejo de rever e reprisar fatos, da vontade tremenda de modificar pequenas escolhas feitas em determinados momentos do passado que se tornaram erros. Hora de rever a história. E aqui vale ficcionar e romancear um pouco, pra coisa ficar mais palatável e pra que eu possa contar a história sem contar nada das pessoas envolvidas.

Num passado distante, num dia chuvoso como esta noite. Eu chorava como choro hoje. Perdido em pensamentos malucos. Idéias dispersas, os olhares ainda não eram dispersos, eu ainda não tinha sido realmente apresentado a câmera fotográfica. O pensamento longe, era um dia frio. As gotas de chuva batiam no meu rosto, meus óculos traziam com sigo as gotas e tentavam esconder as lágrimas que escorriam.

Eu precisava sentir a água me tocando, precisava disso. Imaginava que as gotas iam lavar os cortes da alma e curar feridas que eu até hoje nem sei como se abriram nem se realmente existiram.

E parou de chover de repente. Uma pessoa veio em minha direção. Olhou nos meus olhos e me abraçou, bastou aquilo pra minha cabeça voltar a funcionar de novo.  E foi ai que eu falhei. Não soube retribuir o que recebi. Quando mais necessário, eu não estive presente.

Confesso, aliás, que depois de escolhas mal feitas no passado, onde não levei em conta o merecimento, onde fui mais emocional do que racional. Só fui perceber o quanto essa pessoa é importante para mim quando corri o risco de realmente perdê-la. Perdê-la de uma forma que não se recupera mais.

Daí veio todo um sentimento de dor, que se transformou em alegria infantil, ou melhor , juvenil em dois momentos posteriores. O primeiro quando voltei a falar com essa pessoa, mesmo que virtualmente. Percebi que ela estava ali novamente inteira e íntegra como sempre fora e a segunda, onde ações totalmente infantis minhas deixaram na cara o que eu estava pensando, quando a revi, até mais radiante do que estava na última vez em que nos encontramos.

Ai eu percebi todos os erros que cometi, e confesso que quero repará-los. Quero de alguma forma devolver aquilo que recebi a quem realmente merece. Quero mostrar a essa pessoa o quanto ela é realmente importante para mim. Não quero que errar novamente deixando tudo passar diante dos meus olhos sem deixar claro o que penso e sinto.

Espero que a chuva não precise lavar as lágrimas do meu rosto e muito menos do rosto dessa pessoa.

It’s The End Of The World As We Know It (and I Feel Fine) – R.E.M.

Temos que ter coragem para seguir adiante buscando uma nova fonte de luz

Falei da dor das perdas que sentimos. De como é duro sobreviver a isso. Entretanto, sempre tem um entretanto, é possível tirar algo de positivo dessa dor toda. Geralmente, nos momentos de maior dor e desespero é que surgem as grandes mudanças. Saber aproveitar esses momentos de dor de forma produtiva é difícil, mas necessário.

A morte de um ente querido, a perda de um emprego, o fim de um relacionamento, qualquer coisa que cause dor não pode nos deixar inertes para sempre. Na verdade, após o desespero inicial, é preciso que sejamos fortes o suficiente para mudarmos o mundo. A música que escolhi hoje fala um pouco disso. Gosto bastante do som produzido pelo R.E.M., banda americana que nasceu em 1980. Escolhi It’s The End Of The World As We Know It (and I Feel Fine) (clique aqui para ver o clipe), porque a música fala de um mundo novo. Diz que chegou o fim do mundo que nós conhecemos e nós gostamos disso.

No fundo a proposta ideal é essa mesma. Acontecem tempestades diversas na nossa vida, coisas que mudam a direção do vento que nos empurra adiante. Essas tempestades não estão ai pra nos atrasar. Acontecem porque coisas ruins infelizmente acontecem e se nós conseguimos mudar de direção quando diante de situações críticas então significa que somos plásticos o suficiente para sobreviver nesse mundo maluco.

Um mundo, aliás, que muda a todo instante. O que é certo agora será errado daqui a uma semana. O que amamos agora será motivo de ódio daqui a algum tempo.  Essa mudança repentina de direções deixa qualquer um fragilizado, ainda mais quando se sofre algo ruim enquanto as coisas mudam e não temos tempo de nos adaptar a essas mudanças.

É como estar num longo relacionamento, de repente ele acaba e a gente não sabe mais o que fazer. Não sabe mais paquerar, não sabe mais sair de casa, não sabe nem mais ir o que comer sozinho. O mundo muda nesse tempo em que você. É a sensação de chegar num novo emprego, onde não se conhece ninguém. As pessoas todas parecem apressadas aos nossos olhos, por mais receptivas que sejam. Demora até que estejamos preparados para esse mundo novo, mas temos que entrar de cabeça. Porque o mundo que conhecemos acabou, é hora de aproveitar o novo.

Acompanhar essas rápidas mudanças (ainda mais porque só sentimos as rupturas quando elas nos causam dor) é extremamente difícil. Fico pensando em crianças que perdem os pais, em pais que perdem os filhos, chefes/as de família que perdem o emprego ou simplesmente pessoas que perdem seus sonhos e desejos. Gente que tem que encontrar força para continuar seguindo em frente.

Fico pensando em mim. Nos meus sonhos irrealizados. Confesso que muitos deles ainda povoam a minha mente. Mesmo aqueles que hoje sei serem impossíveis de realizar. Tem coisas desse novo mundo que ainda são impossíveis para mim. Eu ainda vivo preso ao mundo antigo, ou pior, vivo preso a desejos antigos que sei que não vão se realizar. Fiquei pensando muito nisso durante esta semana. Será que vale a pena sonhar ou lutar por algo que não está mais ao seu alcance? Vale a pena sentir essa dor? Vale sofrer?  Às vezes penso que eu gostaria de ser tão forte quanto as pessoas que vi chorando nessa semana. Gente que certamente em breve se lembrará das lágrimas que derramou e fará delas combustível para seguir adiante no novo mundo que se formou. Será que um dia eu consigo seguir adiante?

Epitáfio – Titãs

Que as pétalas aplaquem a dor da saudade

Hoje foi um dia triste, aliás, não foi, está sendo. Acabei de vir de uma cerimônia de cremação.  A morte de uma pessoa conhecida. Esse tipo de evento sempre choca e tira o ânimo. A dor da perda é sempre forte, principalmente para as pessoas mais próximas. Ver o sofrimento do outro hoje doeu muito em mim.

Desde que nascemos sabemos que a única certeza é a da morte. Desde que abrimos os olhos sabemos que um dia não mais perceberemos que o tempo passa. Eu particularmente encaro a minha morte como algo totalmente normal. Tenho uma relação dúbia com a vida. Porém, confesso que a dor do outro me incomoda muito. Ver alguém chorando por uma pessoa que partiu machuca.

Depois de deixar as pessoas que me acompanharam em parte do trajeto, vim para casa pensando. Eu iria falar nessa semana de preconceitos, tinha até bolado a sequência, mas confesso que o que vi hoje me fez mudar de idéia. A primeira música também foi até que óbvia. Confesso que fiquei com ela na cabeça. Sempre gostei dos Titãs e das mais recentes, Epitáfio (clique aqui para ver o clipe) é uma das que mais gosto.

Essa idéia de aproveitar melhor a vida, viver ao máximo é instigante. Confesso que pensei nisso durante todo o dia. Sempre me parece que a dor da separação está mais ligada a sensação de que não se viveu tudo o que se poderia ao lado da pessoa. Esse sentimento de perda não está só na morte, mas em tudo aquilo que nos é caro, seja um relacionamento, seja um emprego, seja uma idéia.

A dor é maior quando percebemos que nada mais pode ser feito. Tudo aquilo que foi pensado e planejado simplesmente é tirado da gente. E sem chance de retomar. Tem quem consiga levar isso de forma tão leve que não se abala com nada. Tem que se desmonte a cada derrota.

As pessoas que conseguem levar a vida as últimas conseqüências, procurando aproveitar todos os segundos e tirando o máximo de proveito de cada ação talvez sejam as mais corretas. Estas nunca poderão dizer que não aproveitaram ao máximo tudo o que viveram. Estes estão sempre prontos para a morte, porque buscam a intensidade na forma de viver.

Estas pessoas vistas por muitos como irresponsáveis, talvez estejam elevando ao máximo a sua responsabilidade. A responsabilidade que cada um carrega para com a própria existência. Justamente por isso assumem riscos, tudo em nome do prazer e de marcar a sua vida como algo positivo, independente do tempo em que ela dure.

Hoje, com a dor que eu estou sentindo, a única coisa que posso recomendar ao meus leitores é que procurem viver bem o tempo que possuem, procurem encontrar o prazer existente em tudo o que fazem. Deixe boas lembranças em quem convive com você e não deixe nada incompleto. É claro que quando você partir as pessoas vão chorar por você, mas se você fizer isso, o choro será um choro de saudade como o que vi hoje e não de desespero, medo ou ódio como vi em outras situações.

Rest in Peace.