One More Kiss, Dear – Vangelis

Hoje eu peço que você deixa a música tocando enquanto lê o post. Na verdade eu sempre achei que essa era a melhor forma de acompanhar meus textos aqui no blog, mas hoje o texto realmente pede trilha.

Em 1982, um dos melhores filmes que já vi chegou ao cinema. Blade Runner – O caçador de andróides. Um filme de ficção meio policial noir. Cores escuras mostravam um futuro sombrio e triste, onde ao som de uma bela trilha sonora composta por Vangelis em cima de pequenos temas de Jazz se constrói uma história rica e contagiante.

Andróides mais fortes e tão inteligentes quanto os humanos são criados para trabalho escravo em lugares perigosos. Eles se revoltam e são mortos por policiais chamados Blade Runners. Podia entrar em detalhes em cima do que o filme discute. E até confesso que isso daria um texto bem interessante. Mas vale a pena falar hoje de algo mais próximo e pessoal, menos geral.

Apesar da correria dos últimos dias, da febre que teima em não sumir e da quantidade imensa de coisas que tenho para fazer. Consegui arrumar tempo para duas conversas mais do que agradáveis, necessárias. Uma delas na noite de sexta num ótimo restaurante japonês em Cotia (eu nem sabia que isso existia por aqui).  Conversa e companhia agradáveis, papos profundos, literatura, vida, relacionamentos. Um pouco de tudo em pauta. E a máxima acaba sendo quase sempre a mesma. O que esperam de nós? Porque quando fazemos algo inesperado ou fora do script da maioria acabamos isolados?  Somos taxados muitas vezes por seguir uma lógica simples e bem menos ritualística do que a grande maioria. Apenas somos quem realmente somos.

Corte para o domingo, preso em casa pela febre, muita coisa pra fazer e de repente uma mensagem no sms. Direto da Alemanha mais uma conversa daquelas definitivas. Trabalho, sonhos, vida, caminhos. E o assunto de forma similar reaparece. É difícil ser a gente mesmo. Quando a gente faz qualquer coisa inesperada ou tenta viver a própria vida acaba sempre sendo julgado e caçado por isso. E nem estou falando em temas polêmicos, até porque me parece que ser polêmico é o que se espera de todo mundo hoje.

Depois dessas conversas é que me vi meio como um replicante (nome dos andróides do filme). Na verdade pensei no grupo que é caçado pelo Harrison Ford simplesmente porque deseja uma forma de viver mais. Apenas isso viver mais. Justamente tudo o que qualquer pessoa quer. O direito a viver a sua própria vida sem incomodar a vida de qualquer outra pessoa.

Ser julgado por usar drogas, beber demais, cometer crimes sociais e morais eu acho aceitável pois no fundo se está quebrando alguma regra existente. Quando se quebra uma regra, deve-se aceitar as conseqüências disso e assumir os riscos dos seus atos. Mas e ser perseguido e isolado apenas por conseguir ser independente? Por conseguir resolver os seus problemas básicos sozinho?

A independência relativa é necessária nos dias atuais. Não consigo aceitar ver mulheres totalmente dependentes dos maridos para tudo. Mulheres que dependem de um sim do parceiro para comprar uma agulha na venda da esquina. Assim como também não vejo com bons olhos homens que exercem domínio psicológico, social ou econômico sobre suas companheiras, chegamos ao século XXI a um bom tempo já.  Me assusta ver que assumir uma postura como essa ainda afasta pessoas e que uma mulher é chamada de machona só porque faz questão de ela própria resolver seus problemas básicos. Como se homem nunca pedisse ajuda pra nada.

Outra história dessa polícia comportamental é a obrigação de sermos amigos de todos o tempo todo. A necessidade de sorrirmos e batermos papo com gente que nem entendem direito o que a gente fala. Pior ainda é ter que ouvir que somos esnobes por não gostar de A ou B já que a maioria gosta.

Coisas como essas nos isolam e nos deixam como os replicantes, igualzinho aos humanos mas renegados e caçados. Vistos como diferentes a serem abatidos de qualquer forma. Deslocados socialmente em busca de um espaço que nem deveria ser conquistado. Afinal esse espaço existe desde sempre.

Isso incomoda, como o filme incomoda quando visto com os olhos de quem quer pensar sobre. Como de certa forma incomodou-me descobrir coisas nessas agradáveis conversas. Mas sem o incômodo, quem sairia do lugar? Impossível crescer acomodado. O problema é que o mundo todo é acomodado e quem não é, é visto como replicante. Nessa eu só posso desejar um beijo mais querida e aguardar os Blade Runners encontrarem a porta da minha casa enquanto busco um modo de simplesmente poder VIVER mais e a vontade.