Samba do Approach – Zeca Baleiro e Zeca Pagodinho

As aves apesar de possuirem belas vozes demoram gerações para criar pequenas alterações em sua linguagem, nós fazemos isso a todo momento, para o bem e para o mal.

Ouço diariamente gente reclamando das palavras que acabam chegando em nossa língua nessa pós modernidade. Um aportuguesamento de expressões de outros idiomas aparentemente sem muito critério. Alguns creditam isso a uma necessidade de parecer chic falar outro idioma. Outros dizem que isso é normal, se preocupar com isso é preciosismo.

O que eu penso? Me apego apenas ao valor da língua, servir de aparato para a comunicação entre as pessoas. Pessoas de um mesmo grupo social (aqui falo de país) deveriam fazer uso da mesma estrutura linguística. As mudanças vão ocorrer enquanto a língua existir, algumas não pegam (ainda bem) como o imexível cunhado nos tempos do Collor pelo então Ministro Magri. Outros neologismos, entretanto, caíram no gosto popular, como deletar.

Estou longe de ser um professor Pasquale, aliás, nem dessa área eu sou. Considero-me apenas um usuário meia-boca da nossa língua. Cometo vários erros, mais do que gostaria. Mas gosto de brincar com a nossa língua, acho que ela tem um valor emocional tremenda e sou dos que acredita que o acordo ortográfico pode sim ser bom para todos os países de língua portuguesa.

Diminuir as pequenas diferenças ortográficas tornaria muito mais barata a produção de material escrito nas 7 nações, o mesmo livro poderia ser comercializado em qualquer local e mesmo programas de computador não precisariam mais ter a opção português brasileiro ou português de Portugal. Confesso que com um pouco de boa vontade dá pra entender facilmente as duas versões da língua. As diferenças nem são tão grandes assim.

Sobre as diferenças eu as vejo como pequenas variações locais e dialetos específicos. Eu como biólogo, uso uma série de expressões vinculadas a minha formação. Advogados possuem uma linguagem própria, assim como engenheiros, arquitetos, jogadores de futebol, e por ai vai. Cada tribo cria suas expressões como forma de identificação do grupo.

E assim as variações surgem em bairros, cidades, regiões. Era de se esperar que surgissem também de país pra país. O importante é perceber que não existe um jeito certo e um jeito errado. No fundo, o que vale é o que é considerado correto pela maioria. Não só na escrita padrão como também na inclusão de novas palavras.

Zeca Baleiro de certa forma brincou com isso na música Samba do Approach (clique para ver). Várias expressões estrangeiras, usadas de maneira desenfreada em nossa língua, fazem a graça da música. O questionamento a se fazer é estas expressões são necessárias? Com certeza não, mas se a maioria das pessoas passar a fazer uso delas. Logo elas estarão em nossos dicionários (até acho que algumas delas já estão).

Nessa linha eu chego ao internetês. Confesso que não gosto da linguagem que uma parte dos jovens fazem uso. É um tal de miguxo pra cá, fofuxa pra lá, vc pra um lado, tb para o outro. Enquanto as contrações e palavras estranhas ficam apenas nos chats e programas tudo bem, o problema é ver que esta forma de escrita está chegando a qualquer texto produzido, mesmo que não estimulemos isso.

Essa linguagem virtual pode sim trocar com a linguagem dita oficial, e isso é aceito e natural. O que, entretanto, acontece atualmente é uma ruptura grosseira e de apenas parte de um grupo. Sempre existiu uma linguagem dos jovens, cheia de gírias que variaram de período para período. O problema, é que raramente essa linguagem chegava a formas oficiais de comunicação. As palavras criadas, quando adicionadas a língua, sempre seguiam os padrões vigentes. O que se busca agora, nessa nova escrita é justamente mudar os padrões vigentes de escrita. De uma maneira até certo ponto radical.

Reitero o que disse antes. A língua deve servir pra comunicar, e de preferência de maneira clara e eficiente. O duro dessas contrações e expressões é que elas a meu ver repetem os mesmos problemas de comunicação como ocorre com LIBRAS, por exemplo. Você reduz tanto as formas de comunicação que faltam expressões dentro das regras que se criam. Assim ao invés de facilitar a comunicação. Algumas variações na língua dificultam muito mais do que facilitam aquilo que propõem, que é a comunicação clara entre os homens. Será que as mudanças na língua podem torná-la menos variada e capaz de gerar comunicação?

Fico imaginado poemas e músicas escritos com essa forma corrida e veloz de se comunicar. Fico imaginando romances produzidos nessa matriz. Tudo para consumo imediato e veloz, sem nuances e profundidade. Não vejo o estrangeirismo como problema e sim a perda de expressividade com as constantes contrações na escrita.

I vc ki axa?

O Parque da Juraci – Genival Lacerda e Zeca Baleiro

Só é possível que você sente numa dessas cadeiras na beira da praia porque alguém as fez e as colocou lá

Na quinta eu falei da relação causa e efeito nos relacionamentos, mas ela atinge todos os pontos da nossa vida. Por mais que eu deseje isso (tenho que admitir), não dá pra viver isolado do mundo ou mesmo independente das outras pessoas.

Um exemplo disso é a música que eu escolhi para este texto. Adoro Zeca Baleiro e ouvindo uns CDs antigos encontrei essa música gravada junto com o Genival Lacerda. O clipe encontrado no youtube (clique aqui para ver) para o Parque de Juraci também é bastante divertido. Até porque não dá pra levar a sério nem fugir do riso em qualquer situação que o Genival Lacerda apareça. Até o hábito que ele traz em suas músicas de trabalhar com sentido duplo aparece, onde a frase Juraci que parque é confundida com Jurasic Park. Confesso que gostei da tirada dos autores do clipe.

Mas voltando ao que interessa. Na música, o Zeca fala que recebeu um convite para visitar um parque com a Juraci, mas ao chegar lá o parque já não existe, foi substituído por um restaurante por quilo. Ele descreve a história demonstrando as sensações que tomam conta do cantor. Primeiro a alegria eufórica pelo convite e depois a raiva e ira ao perceber-se sem o parque e de certa forma enganado.

Quantas vezes isso não acontece diariamente conosco? Você planeja algo nos mínimos detalhes, deixa tudo bem claro, porém, devido a outras pessoas seu planejamento vai por água abaixo. Por mais óbvio que alguns comportamentos possam parecer, nunca podemos prever o que o outro fará em determinada situação.

É comum no trabalho você seguir seu ritmo e se ver parado, pois depende do serviço do outro que ainda não fez a sua parte. Você se arruma pra sair e vai ao ponto de ônibus num dia chuvoso e um motorista passa numa poça te sujando inteiro no dia de uma entrevista de emprego. Coisas assim, bem lei de Murphy acontecem aos montes.

Talvez eu pareça um tanto misantropo, aliás, talvez eu até seja mesmo. Mas confesso que muitas vezes gostaria de depender menos do outro. Gostaria que as minhas ações fossem mais responsáveis pelo que sou e pelo que produzo do que as ações dos outros. Entretanto, sei que isso não passa de um sonho irreal e distante. Não existe independência social, até o mais isolado dos ermitões sofrerá as ações de pessoas que ele nem ao menos sabe que existem.

Confesso que algumas vezes essa dependência me dá medo. Gostaria sim de poder depender mais de mim em diversas situações. Gostaria de controlar mais partes de todos os processos que fazem parte da minha vida. Pelo menos em alguns aspectos. Assim como em muitos casos também gostaria de não intervir tanto na vida do outro.

Sei que muito da minha atividade profissional é feita para o outro. Sem a resposta do outro não vale a pena escrever, fotografar, dar aulas. Aliás, dar aulas talvez seja uma das ações que mais influencia na vida de outras pessoas. Eu sei disso e nem é esse o ponto que me preocupa. Nessa linha, o que me preocupa é algumas vezes encontrar pessoas que observam você como um guia a ser seguido.

São pessoas que atuam de forma completamente oposta ao que eu penso. São pessoas que deixam tudo na mão do outro e assumem isso. Suas idéias nunca são exatamente suas, nem as vontades. São pessoas que precisam de líderes sempre e infelizmente gente que é manipulada e parece gostar disso. Gente que não percebe que pode sim mostrar quem é e a que veio.

Provavelmente a situação correta seja o meio termo, nem sentir o incômodo que eu sinto nessa dependência e muito menos não perceber que se pode interagir sem aceitar tudo pronto. Sei também que atuamos de forma diferente em cada situação. Se quiser, conte uma situação em que se sente incomodado com a dependência do outro para algo em sua vida, ou então uma situação em que adora isso.