Falling to Pieces – Faith no More

falling

Vejo muita gente comemorando a saída da presidente e entrada do vice como agora presidente oficial. Sinceramente não vejo motivo pra comemorar. Nunca me senti representado pela Dilma, aliás, me sentia mal representado em diversos aspectos. Mas confesso que nunca comemoraria uma queda.

Como comemorar uma falha?  O fato de um governo dar errado, significa que o país naquele momento falhou. A queda da presidente é mais para ser sentida do que ser louvada. Até porque o motivo da queda não é consenso nem entre quem estuda a fundo a legislação. Pra mim, ela só caiu porque não tem mais apoio no Congresso, é o nosso presidencialismo de fachada, onde o executivo leva a culpa, mas não faz nada sem o legislativo.

Ainda no quesito frustração, vale lembrar que essa história poderia ter ocorrido em governos anteriores. Lulla e FHC tiveram vários pedidos de impeachment (tão malucos quanto este) que não passaram apenas pela força destes no congresso. Ou seja, pau que dá em Chico bate também em Francisco. De novo a nossa sempre irresponsável oposição (independente de quem seja governo ou oposição) se preocupa mais em encher o saco do que realmente fazer algo produtivo.

Isso, entretanto não serve pra transformar a ex-presidente em mártir. Ela não é santa e nem deve ser beatificada. Caiu porque cometeu seus milhares de erros políticos. Caiu porque para chegar ao poder escolheu seus companheiros de campanha e achou que eles não precisavam ter voz ativa em seu governo. O PT não é culpado pelos erros desse governo. Os erros são culpa do PT, do PMDB, do PSD, do PR, do PROS e de todos os partidos da base aliada. Se era pra tirar, que saíssem todos (e nem vem com essa de Aécio, novas eleições por favor e de preferência com uma reforma política e partidária séria, para que tantos partidos?).

Você que comemora a queda, espero que não fique cego e ache que tudo está resolvido. Vale lembrar que o atual presidente era vice, fazia parte do antigo governo e mesmo que não fizesse. Ele tem que ser cobrado. Tem que responder pelos seus erros, afinal ele é ficha suja, não?

Aos que choraram pela ex-presidente. Respeito os sentimentos, mesmo achando que não é pra tanto. Mas ao invés de se sentirem perseguidos, vale cobrar o novo governo e parar de querer criar mitos. A inocência passa longe de toda a turma que estava envolvida nessa história, não vale a pena se iludir por político.

Pensando nisso, sobra uma última reflexão nesse fla x flu político. Gente, direita e esquerda não são denominações de certo e errado. Ninguém é bom ou ruim por ter uma visão ou outra. Acreditar que só existe um caminho é de uma limitação de raciocínio incrível. Vejo gente bem formada e aparentemente bem informada ofendendo ambos os lados de uma forma que eu nunca imaginei ver em meu país. Nunca imaginei, aliás, ver meu país tão dividido numa briga em que infelizmente parece que todos os lados estão errados e que no fundo ninguém sairá ganhando, apenas os políticos. O povo? Seja a direita ou a esquerda, aparentemente só está servindo de massa de manobra para essa turma que nos governa.

Não consigo pensar numa música melhor pro nosso país do que essa que eu coloquei, afinal realmente eu vejo tudo caindo aos pedaços. Minha dúvida é será que a gente vai conseguir reconstruir?

Book of Days – Enya

O post de hoje nasceu de uma brincadeiras dessas que surge vez ou outra no facebook. Montar uma lista com os meus autores prediletos, ou melhor os que mais me influenciaram. Foi duro fazer a lista, mas nem é esse o caso. O primeiro foi o mais fácil. Posso até vez ou outra esquecer do nome do Nick Hornby, mas se esqueço do nome, não esqueço dos livros. O autor realmente fala comigo de forma quase terapêutica (ele não compete com minha psicóloga, mas tem seu espaço…rs).

Um livro em especial tem muito a ver com este blog. É ele que inspirou o formato. Tem uma obra chamada 31 canções em que o Hornby fala das 31 músicas mais importantes pra ele, não importa a qualidade das músicas e sim que ele gosta delas. Em geral canções pop e rock inglesas. Textos sem nenhuma pretensão de teoria musical. Textos de um fã das músicas para fãs do autor. Eu planejo escrever um livro assim, não com a genialidade do Hornby, ou com todo o seu público, mas de certa forma quero sim contar ao mundo minha trilha sonora e fazer pequenas discussões sobre ela. E nesse modo de pensar, o blog segue como um teste para o livro.

A música de hoje fala um pouco disso. Ao ouvir a Enya cantando eu sinto como se a cada verso os acontecimentos diários fossem todos escritos num grande livro que guarda toda a história. Tudo, é claro, sob o ponto de vista de quem detém o poder sobre aquele livro. Como se cada um de nós tivesse um livro próprio que só chegará ao fim com a nossa morte. E ai ao pensar na brincadeira e ouvir essa música, confesso que fiquei pensando em como seria o meu livro dos dias. O que será que estaria escrito nele?

Tenho que admitir que a maioria das páginas viria acompanhada de uma série de acontecimentos cotidianos extremamente chatos e sem muita ação. Provavelmente pouca coisa fugiria do levantou, saiu para o trabalho, voltou ligou a tevê e o computador, adormeceu e esperou o despertador tocar novamente. Nos poucos dias livres muda um pouco para adormeceu sem ter hora pra acordar. Quando abriu os olhos o sol já alto entrava pela janela, ligou a tevê e o computador até a hora de dormir. Teve medo de viver. Talvez essa seja a melhor reflexão.

Garanto que se em algum momento no lugar das ações, meus pensamentos fossem escritos, a história seria bem mais divertida. Se no campo das ideias eu consigo assumir meus medos e meus erros. Falta um pouco ainda pra passar para a ação, falta aquele empurrãozinho final. Preciso fazer isso o mais rápido possível para que no final meu livro tenha algo mais do que obviedades.

Porque mais importante do que belas palavras numa folha de papel seriam belas histórias gravadas nesse livro dos dias. E elas não existem em parte por fragilidade minha. Pena que mudar nunca é tão fácil quanto parece, mas um dia eu aprendo.

Like a Virgin – Madonna

30 criminosos destruíram uma vida. É essa a grande manchete de todos os jornais, ou pelo menos a leitura que eu faço dela. 30 criminosos, não consigo ler de outra forma. E diariamente milhares de outras vidas são destruídas de todas as formas possíveis e imagináveis. Dessa vez, porém, a dor parece maior.

Não pelo crime em si, que é realmente hediondo. Me incomoda muito mais a impressão de que tem gente tentando simplesmente fazer discurso em cima do sofrimento alheio. Aliás, infelizmente é o que mais se tem feito. Pessoas defendem bandeiras e usam tudo o que está ao seu alcance para provar que o seu jeito de pensar é o correto, esquecendo do principal, a dor de quem sofre.

Acho justo neste momento as mulheres levantarem suas bandeiras pedindo sim uma mudança de pensamento. O risco existe num comportamento perigoso que ainda reside em muitas mentes. Não mudo minhas fotos nas redes sociais, mas apoio a luta, é uma postura pessoal. Nem mesmo em causas que me afetam de maneira bem mais direta como o movimento negro me forçariam a tanto. Até por pessoalmente eu pensar numa linha bastante diferente destes movimentos.

É nessa diferença que surge o incômodo ao ver a maneira curta de pensar de alguns. Eu tenho amigos ligados a direita e a esquerda que defendem suas ideias de maneira clara e dentro de um nível alto de respeito e educação. Tenho visto, porém, gente que extrapola. Se eu já me incomodava quando as falas eram Petralhas x Tucanalhas ou Coxinhas x Mortadelas, ver a apropriação da tragédia de uma pessoa como bandeira política e usar isso como ofensa ao pensamento do outro chega a ser repugnante.

Para começar as ideias mais imbecis que li. Gente, uma vítima não pode ser acusada de ser a culpada pelo crime que sofreu. Não importa onde ela estava, com quem estava ou o que vestia. Digo mais, não importa nem mesmo seu sexo biológico (ou orientação sexual). Não existe maneira de colocar a culpa na vítima e não nos estupradores. Não é culpa do capital e nem dos “direitos humanos”. É culpa dos estupradores e ampliando a discussão em certa linha também de quem tenta de alguma forma dourar a pílula.

Lembremos que vivemos num país em que um deputado diz que não estupraria uma pessoa por ela não merecer (aliás, alguém merece?) e nada acontece a esse deputado. Lembremos que do outro lado, anos atrás uma candidata a cargo eletivo num partido que recebia apoio da comunidade LGBT questionou a orientação sexual de outro candidato em sua campanha e também nada aconteceu. Ambos estão ai com sua vida política em dia.

Mas voltando ao caso. Não me sinto culpado apenas por ser homem. Aliás, esse tipo de comportamento me soa extremamente populista. Eu nunca vou me sentir culpado ou estuprador em potencial por ser homem. Mulheres podem ser tão ou mais machistas do que homens e defender o machismo causa mais casos de estupro do que ter um pênis. Ao invés de pedir desculpas, faça algo de útil. De alguma forma tente fazer com que cada vez menos pessoas acreditem numa superioridade de um sexo sobre o outro.

E nem falo em ser feminista. Eu não sou. Não participo de movimento algum, já escrevi isso antes. Apenas acredito que não existem pessoas de primeiro ou segundo escalão seja por sexo, orientação sexual, cor da pele, dinheiro ou o que quer que seja que de maneira artificial seja utilizado para nos separar. Por isso tento do meu jeito mostrar isso a quem convive comigo. Procuro passar essa ideia aos jovens que formo, aos adultos que estão ao meu lado, e nessa troca, ouço as ideias de todas as pessoas com quem convivo também, independente da classe social, idade, raça, credo, cor ou o que quer que seja.

E o mais divertido dessa convivência, é perceber que muitos dos problemas podem ser resolvidos com ideias adotadas ligadas tanto a direita quanto a esquerda. Uma boa ideia não tem lado. Uma forma de pensar pode se tornar melhor ou pior de acordo com quem a utiliza. Se você assim como eu também se chocou com esse caso de estupro, apenas aja, não culpe ninguém além dos estupradores e faça de tudo para que novos casos como esse não ocorram mais em nosso país. Nessas horas eu queria entender porque a gente sempre esquece que mais de um caminho pode levar ao mesmo local.

Only Angels Have Wings – Renaissance

Faz muito tempo que não venho aqui. Me faltava tema, me faltava estímulo e principalmente me faltava coragem. Este espaço, diferente de outros locais onde escrevo sempre foi extremamente pessoal. Sempre foi um lugar onde eu pude me abrir e contar exatamente quem eu sou, sem medo e sem a necessidade de esconder quaisquer sentimentos que surgissem em mim.

Durante um período isso deixou de ser verdade. Como qualquer pessoa eu passei por dores que não suportei e ai as palavras que costuma lançar por aqui já não conseguiam me acalmar, eram mais dor do que uma forma de diminuir o sofrimento. Foi nesse momento que eu percebi que precisava dar um tempo, crescer mais como gente e então quem sabe voltar mais tarde, mais maduro e mais forte.

E assim o tempo passou, quase dois anos se passaram com poucos e raros textos por aqui. Era ameaçar sentar na frente do micro e ter mais dor do que vontade de escrever. Isso até hoje. Quando depois de um final de semana complicado, mentalmente mais difícil do que o esperado eu consigo escrever. Consigo ouvir uma música inteira deixando a melodia e mesmo a letra falar comigo de forma mais intensa, consigo até mesmo me ver como alguém que ainda tem alguma coisa para dizer.

Eu hoje vim leve, sabendo que muitas vezes os nossos limites são bem maiores do que a gente imagina. Vim sabendo que tenho limites e que algumas coisas talvez eu nunca seja capaz de fazer. Mas vim também ciente de que algumas coisas que busco, por mais difíceis de conseguir, serão para sempre metas em minha vida, uma bússola para onde aponto a nau da minha vida e sigo contra toda a força das tempestades que teimam em tentar me parar.

É claro que me sinto fortalecido, de certa forma apaixonado pelo que vivo e por isso aguentando mais a dor que se avizinha. Mas é justamente nessas horas que a gente perceber que não é realmente tão fraco assim. É quando percebe que tem outras maneiras de se conseguir dar um passo adiante mesmo que as pernas estejam engessadas. Sempre vai existir uma forma de mudar o que nos incomoda.

Se agora não é fácil viver, provavelmente nunca tenha sido para ninguém e nem vai ser no futuro. Mas pode ser mais divertido e acolhedor. Basta a gente se abrir ao que aparece de bom diante dos nossos olhos e aceitar de forma mais leve os problemas que surgem. Nem todos terão solução. Não resolver não será um problema, será apenas algo natural.

Porque temos que saber nossos limites, não podemos fazer tudo, por mais que as vezes pessoas nos tirem do chão, não podemos voar, afinal só os anjos possuem asas…

Stars – Simply Red

 

 

Tantas pessoas vendo a Lua, as fotos postadas mostrando um sorriso doce e uma pinta bem perto desses lábios sorridentes (Vênus trazendo todo o seu charme). Confesso que nunca vi tanta gente postando fotos da Lua ou do céu. Acho que só em eclipses vi uma formação no céu chamar tanto a atenção de todos nós na geração computador.

Eu fui até a sacada do prédio onde moro e até arrisquei uns cliques, mas confesso que fiquei mais atendo ao olhar em volta. Procurar outras coisas no céu que poderiam também ter chamado a atenção de quem olhasse. Agora mesmo enquanto escrevo, sentado aqui no sofá, as nove horas da noite, se olhar para fora do apartamento, em direção a sacada e para o alto fica fácil ver a constelação de Escorpião. Fica rápido encontrar a brilhante Antares, coração do escorpião que caminha pelo céu.

E poderia passar um bom tempo vendo e citando outras constelações (já que a Lua mesmo não consigo ver mais daqui de onde escrevo). É incrível como mesmo não fazendo tanto sucesso assim quanto a Lua as estrelas estão sempre lá no céu. Pouco importa que a gente não saiba seus nomes, que não lhes dedique atenção como a outros astros que todo mundo conhece por nome e sobrenome se tivessem. Elas estão lá e fazem seu papel, servem de guia a quem se interessar por seguir seus passos noite a noite e embelezam sempre os corações apaixonados.

Não pretendo aqui ficar falando do que realmente são estrelas ou outros astros, quem me conhece sabe o quanto gosto de Astronomia, só que o momento aqui é outro pede outra leitura. Deixo os conhecimentos científicos de lado por um instante para me apegar a poesia que tanto prendeu tantos hoje a noite e a formas de se ler o que a poesia escondeu.

A ternura da busca pelo belo sorriso da Lua, me fez pensar em como cada um tem que saber levar o seu mágico papel silencioso. As estrelas todas estavam lá (e são muitas mais e muito maiores do que qualquer satélite como a lua). E não se importam com um pseudo segundo plano no gosto popular. As pessoas acham a lua mais bonita e ponto. Chamam geralmente todas as estrelas de estrelas, não se importam em saber que uma chama Antares, outra Aldebaram, Deneb ou qualquer outro nome que tenha sido inventado por algum observador no passado.

Fazer o que deve ser feito independente do reconhecimento é uma difícil lição. A gente sempre espera um muito obrigado, um parabéns, um reconhecimento pelo bom trabalho. A gente sempre espera algo em troca. Só que a gente deveria apenas fazer por fazer. Fazer o que a gente acredita e porque a gente acredita. Pena ser tão difícil isso.

Difícil também é reconhecer o valor de todos em um resultado. A noite só é tão bela pela presença de todas as estrelas que brilham e dançam ao redor da lua, que recebe do Sol a sua luz. E a gente esquece de agradecer a todos estes. Como esquece de agradecer aos pequenos agrados que recebemos diariamente.

Se a escola que eu trabalho está limpa quando eu chego, é porque alguém fez o trabalho antes que eu chegasse, bem como alguém construiu o espaço, organizou as salas, matriculou os alunos, cuidou para que os mesmos entrassem no horário nas respectivas salas e garantiu que estes recebessem o lanche nos horários corretos.

Tanta gente invisível. Tanta gente que sem a sua presença em algum momento, o meu trabalho simplesmente não existiria. E isso sem falar dos diversos outros que eu simplesmente não tive como citar. Será que eu realmente consigo ver a grandeza do papel de cada um?

Engraçado como a gente valora uns mais que os outros, diz que  existem trabalhos,  carreiras e histórias de vida mais importantes dentro do grande grupo social em que estamos inseridos. Ok, uns estudam mais, outros produzem mais, uns são mais habilidosos e outros mais espertos. Só que no fundo todos somos apenas humanos e valorar minimamente esse lado em cada um deveria ser uma lição daquelas que a gente aprende em casa. Aliás o quanto eu aprendi com faxineiros, pedreiros, médicos, escritores, artistas ou qualquer outro profissional que seja é extremamente pouco se comparado ao que eu aprendo diariamente com pessoas, pessoas de todas as idades, saberes e valores.

Porque é difícil para a gente lembrar que embaixo de cada personagem social somos todos apenas humanos, com os mesmos direitos e deveres. Se alguns aparentemente brilham mais do que outros, só o fazem porque os outros preparam o palco para que os alguns brilhem.

Freedom Jazz Dance – Miles Davis

 

 

Flores raras, o filme  que me fez pensar em tanta coisa, talvez nem mostre mesmo tanta coisa para ser dita. Mas eu me aproveito dos pequenos lampejos de ideias que surgiram durante o filme pra tentar produzir alguma coisa interessante aqui no blog.

Além da catarse traduzida no texto anterior, outro ponto veio muito forte a mim durante o filme. A falsa liberdade existente em nossas ações. A falsa sensação de que realmente temos escolhas conscientes em nossa vida e a falsa mentira que contamos a nós mesmos quando ao olhar no espelho nos vemos como pessoas realmente livres.

Elizabeth Bishop era presa em diversos pontos, seus medos, sua própria indecisão e a sua carreira, pareciam formar uma cela invisível na qual ela foi inserida ainda menina e de certa forma demorou anos a lidar com o pouco espaço destinado aos seus passos menos direcionados. Ela com o tempo aprendeu a lidar bem com essa liberdade relativa e seguiu muito bem sua vida. Nem é dela que me pego falando nesse texto, mas principalmente de outras duas personagens fortes e femininas. Mary e principalmente Lota são o meu foco hoje. Até porque elas representam também parte da dor que muita gente sente sem saber e que muitas vezes temos medo de lidar.

Mary é o exemplo mais claro de prisão. Logo se viu impossível de se libertar de seus sentimentos por Lota e simplesmente aceitou de bom grado as migalhas que recebia, dentro de um sistema onde ela imaginava aos poucos ampliar os pequenos espaços disponíveis em sua cela emocional. Na verdade aconteceu justamente o oposto, ela ficou cada vez mais presa, só que resignada, viu as migalhas recebidas como algo suficiente para a vida que deveria levar, mesmo que houvesse dor nela.

Já Lota traz uma linha de pensamento bem mais complexa e difícil de seguir. Aparentemente uma mulher forte e livre, pouco a pouco ela vai se mostrando presa em um falso mundo criado por ela que de uma forma ou de outra começa a ruir, pedaço a pedaço. E por fim não sobra nada além do desespero que se traduz em morte.

O que me pegou é lembrar que eu me sinto muitas vezes assim, livre. E só depois de um tempo é que percebo  que ainda estou preso a algo. Tenho percebido os limites da minha prisão de forma muito clara nesses últimos dias. Por mais que eu me ache livre, existem ainda um monte de amarras que me prendem a uma série de coisas que simplesmente não me deixam seguir adiante como eu gostaria ou deveria em determinados assuntos.

A sorte (se é que isso pode ser chamado de sorte), é que isso ocorre com todo mundo. Sempre vai ter algum ponto em que nós vamos nos sentir presos a algo. Sempre vai ter algum momento em que uma barreira (física ou emocional) vai surgir do nada diante dos nossos olhos e simplesmente nos impedir de dar um passo adiante, por menor que seja esse passo. E é só nesse momento que vamos nos dar conta de que estamos dentro de uma prisão. O problema ai é ter a cabeça forte o suficiente para aceitar a prisão como algo normal e não um fardo capaz de levar alguém a dar cabo da própria vida. Afinal, só com muita paciência e sabedoria é que se consegue aumentar o tamanho da cela e assim voltar a falsa sensação de liberdade.

Porque é preciso entender que a nossa liberdade vai apenas até onde nossos medos e fraquezas permitem. Por mais que se queira voar nossas asas não nos permitem atravessar o oceano. É preciso ter calma e paciência para criar as ferramentas necessárias para isso. E é isso o que eu busco agora, se não a liberdade plena (que é inexistente) formas de me sentir livre mesmo dentro dos limites de meus medos e minhas fraquezas.

Chameleon – Herbie Hancock

 

 

Sim, eu sei, fiquei um bom tempo longe do blog. Tentando colocar a cabeça no lugar depois de uma fase extremamente ruim que ainda não posso dizer que tenha conseguido digerir. Meu próximo livro está quase todo rascunhado, faltam as fotos, mas as ideias estão postas. Ideias que revelam um pouco do que me fez chorar por tanto tempo e também revelam porque eu com certeza voltarei a chorar em breve. Queria apenas voltar no tempo e congelar a minha vida em alguns momentos que que queria eternos. Entretanto, sei que é hora de seguir adiante. Sei que é o momento de tentar olhar pra frente e deixar pra trás o que incomoda, trazendo na memória aquilo que me faz feliz e me motiva.

Deixando pra lá esse pequeno momento de auto piedade, vale começar a falar sobre o que realmente interessa, o que me trouxe até este texto que você está lendo agora. O início do texto foi a quinta-feira, onde assisti um show em que a palavra mágico talvez seja a melhor forma de descrever o que vi e senti ao ver o show. Foi o melhor show da minha vida? Provavelmente não, mas com certeza foi um dos que mais mexeu comigo. Vi pessoas em catarse enquanto as notas eram tocadas, como se fossem regidas pela banda num movimento quase espiritual. Raras vezes vi um artista mexer tanto com seu público sem forçar qualquer tipo de interação com o mesmo, apenas fazendo aquilo que sabe melhor, no caso de Herbie Hancock, tocar jazz.

O texto termina no final da noite de domingo. Uma das últimas sessões do cinema, uma noite que foi esfriando em um dia quente. Fui ver Flores Raras, filme que conta a história do relacionamento entre a poetisa americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares. A forma graciosa como a história é contada, trazendo nuances que te prendem sem que você perceba é de certa forma similar ao que percebi durante o show.

Claro que tudo se mostra de forma diferente. Enquanto o show foi alegre e catártico, o filme foi denso e apresentou durante diversos momentos tapas na cara que eram necessários. Enquanto a mensagem do Herbie Hancock era a que se você se entregar ao som produzido por sua banda, de alguma forma encontrará a felicidade, o som servirá para expurgar os seus medos, no filme o que senti foi quase o oposto, uma busca interna, onde uma história que aparentemente nada tinha a ver comigo trouxe uma série de pensamentos extremamente complexos e pessoais.

Foi uma catarse diferente. Mas uma catarse necessária. Não que eu precisasse esquecer da alegria do show, mas sim eu precisava ter coragem para pensar em algumas coisas que estavam me travando, estavam inclusive me impedindo de chegar até o blog. Assumir a fragilidade faz parte do processo de cura, o que pode levar a uma derrota derradeira é justamente fingir-se mais forte do que realmente se é. E aprender isso nem sempre é fácil. Mais fácil ver isso ocorrendo com o outro e a partir desse ponto, entender que também possui fraquezas similares e elas não tornam as pessoas melhores ou piores, são apenas características.

Pretendo voltar aos temas levantados pelo filme com mais afinco e em outros textos, hoje me prendo apenas na catarse gerada tanto pela alegria desmedida quanto pelo pensar intenso e constante. Porque as vezes é necessário estar entorpecido pelos próprios pensamentos e sensações  para que alguns passos sejam dados com clareza.